Milhares de tinteiros navegaram o Atlântico durante sete anos e atracaram nas praias europeias

Há sete anos, um contentor de um navio de carga, que transportava milhares de tinteiros, caiu no Atlântico. Após o primeiro cartucho ser encontrado na costa açoriana, sucederam-se centenas nas praias de todo o mundo, da Florida à Noruega. Incidente está a ajudar investigadores a perceber como é que as correntes transportam lixo pelo oceano.

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Andrew Turner

Em Janeiro de 2014, um navio de carga perdeu um dos contentores que transportava, perto da costa de Nova Iorque. Milhares de cartuchos de tinta para impressora, feitos de plástico, ficaram à deriva no norte do Atlântico. Mais de quatro mil quilómetros depois, chegaram à Europa. Este acidente está a ajudar cientistas a mapear a forma como as correntes marítimas transportam lixo por todo o planeta.

Os primeiros cartuchos da marca HP foram encontrados, em Setembro de 2014, na costa açoriana. Um ano depois, começaram a aparecer nas praias do sudoeste de Inglaterra, o que motivou uma equipa de investigadores da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, a pedir ajuda aos cidadãos. Através de um grupo de Facebook de 55 mil beachcombers de todo o mundo — pessoas ​que limpam e recolhem o lixo das praias —, pediram que todos estivessem atentos ao aparecimento de tinteiros nas suas praias. O apelo foi formalmente terminado em 2018, mas, até hoje, os participantes não pararam de descobrir tinteiros de plástico à beira-mar.

Alguns dos cartuchos de tinta da marca HP encontrados e documentados por beachcombers de todo o mundo. Andrew Turner
Alguns dos cartuchos de tinta da marca HP encontrados e documentados por beachcombers de todo o mundo. Andrew Turner
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Andrew Turner

“Com uma estimativa de várias centenas a vários milhares de contentores perdidos no mar todos os anos, em comparação com os mais de 100 milhões transportados, as perdas de carga não são particularmente comuns”, afirmam os investigadores de Plymouth, que utilizaram este caso para compreender melhor o impacto das perdas de contentores no oceano. “Contudo, estes contentores podem causar danos materiais e ambientais significativos no oceano, com um maior impacto consoante o tipo de carga que transportam. Uma vez destruídos os contentores, o material que carregam escapa e deposita-se no fundo do oceano, ou fica à superfície e dispersa-se.”

Foi o que aconteceu com estes cartuchos de plástico: dispersaram-se, demasiado leves para afundar. Os dados reunidos pelos investigadores da Universidade de Plymouth, que serão publicados em breve na revista académicEnvironmental Pollutionindicam que, entre 2014 e 2018, foram encontrados 1467 cartuchos espalhados pelas zonas costeiras da Europa Ocidental, Canárias, Bermudas, na Florida e no norte da Noruega. Os maiores conjuntos ficaram nas praias inglesas. 

Segundo os investigadores, em territórios influenciados pela Corrente do Atlântico Norte, como Portugal, a acumulação de cartuchos foi “nitidamente maior” nas costas a sul e oeste. Em Portugal continental e no arquipélago dos Açores foram encontrados cerca de 200 cartuchos. ​

A equipa de cientistas, liderada por Andrew Turner, professor de Ciências do Ambiente na Universidade de Plymouth, concluiu ainda que, após anos no mar, alguns cartuchos continuam intactos, mas outros desfazem-se em pequenos objectos quebradiços, libertando microplásticos no oceano — que, segundo um estudo anterior do investigador britânico, poderão ficar até 1300 anos no mar. Uma análise mais minuciosa destes objectos revelou que continham metais como ferro, cobre e titânio, uma vez que os cartuchos de impressão não criam apenas resíduos plásticos, mas também resíduos electrónicos.

Este é o primeiro estudo a localizar e seguir plástico derramado no Atlântico, e torna-se único ao combinar a colaboração de cidadãos de todo o mundo, organizada através das redes sociais, e a investigação oceanográfica. De acordo com os investigadores, mais de 500 contentores são perdidos, todos os anos, no oceano. “A maioria dos contentores perdidos não é, sistematicamente, documentada porque não existe qualquer obrigação de declarar a perda de carga, a não ser que seja de natureza perigosa”, lê-se no texto.

Embora os investigadores tenham reconstituído o percurso dos tinteiros no oceano, que se terão espalhado a uma velocidade média de dez centímetros por segundo, ou seja, perto de 300 metros por hora, esclarecem que, assim que um derrame acontece, não há forma de o reverter ou limpar totalmente.