Ler é sexy

Não é sexy como maquilhagem, é sexy como vulnerabilidade. É sexy como independência, é sexy como alguém que se assegura, mesmo sem bateria no telefone.

Foto
Ben White/Unsplash

Quem adora livros cai na inevitabilidade de falar muito desta paixão, de buscar quem compartilhe o amor por estes tradutores da nossa intimidade e subterfúgios dos nossos males. Encontrar outro leitor traz o conforto de quem descobre na mesma gruta mais uma pessoa que se abriga da chuva.

É difícil desviarmo-nos do estigma da presunção e da sobranceria, de sermos vistos como aqueles que só querem brindar com o cálice sagrado do conhecimento. Tememos que nos julguem mais inebriados pelo cheiro das páginas do que pelo aroma da vida. Mas é a relação intensa com a vida que nos faz reconhecê-la, amá-la e fugir dela através dos livros.

Ler é sexy. Talvez esta mensagem não esteja a ser passada por quem, como eu, gostava de encontrar mais leitores no caminho. Soa estranho, eu sei. Parece aquelas mensagens de desenvolvimento pessoal para repetirmos ao espelho, do género: “Eu sou bonita, eu sou forte, eu sou poderosa.” Ler é sexy, ler é sexy, ler é sexy. Não é sexy como maquilhagem, é sexy como vulnerabilidade. É sexy como independência, é sexy como alguém que se assegura, mesmo sem bateria no telefone.

Os aficionados dos livros levaram o carimbo dos chatos, dos nerds, dos alternativos e ecoam o tom impositivo dos professores de português a declamar o Sermão de Santo António aos Peixes, que conseguiu traumatizar gerações. Não há nada pior do que um livro antes do tempo. É como comer um iogurte estragado, ganha-se repulsa e há quem nunca mais consiga.

Falar de livros resvala facilmente na jactância de se usar palavras como jactância e mostrar que se lê tem travo a exibicionismo. Não é difícil a conversa descambar para o pedantismo e, quando assim é, não é nada sexy. É preciso mestria para se introduzir a literatura no meio de uma conversa e está-se sempre a uma citação de Proust forçada de se estragar um encontro ou uma crónica. Não é fácil que a conversa sobre livros seja boa, é como a conversa sobre sexo. Em comparação, o acto vence sempre.

Ler também pode ser muito pouco atractivo, há livros que me afastam mais do que mau hálito, se um homem estiver a ler o Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, a libido cai a pique. Julgo livros pela capa e acredito que quem vê capas também vê corações. Respeito a auto-ajuda, mas não percebo porque se chama “auto”, se já houve alguém que escreveu aquele livro e confio muito mais na alta-ajuda da boa literatura do que nos livros que prometem a salvação na capa. Os livros são os violinistas do Titanic, servem mais para nos dar música enquanto vão ao fundo connosco do que para serem bóias salva-vidas. São mais companheiros do que instrutores, mais amantes do que maridos. Não deve haver utilidade prática nos livros, e é aí que está a beleza. Para a utilidade prática temos os workshops e as Bimbys. Mas há muito a retirar dos livros. São, aliás, o retiro do mundo que no-lo devolve em forma legível, são o gasto de tempo que nos entrega a eternidade. São as conversas com outras épocas em forma de presente, são as convocações dos mestres em forma de silêncio.

Os tops de livros são, muitas vezes, quase tão perigosos como os tops cai-cai ou como o uso desmedido da palavra top. Por serem seleccionados pelo número de vendas, entre boas obras, vão lá parar muitos livros de empreendedorismo e tanta gente que quer começar a ler guia-se pelos tops de vendas, escorrega nessa casca de banana e nunca mais volta a pegar num livro depois de constatar que afinal está muito distante de vir a tornar-se um verdadeiro líder.

Precisamos de livros e, sobretudo, de ficção. É ela que abarca o magnetismo e a vitalidade que a realidade não comporta. É ela que nos amarra e aprisiona às tramas e às personagens. Ela dita-nos a velocidade e faz-nos seguir em ritmos descompassados pelas linhas fora, entre avidez e acalmia, entre sofreguidão e moderação. Quantas vezes temos de ultrapassar uma descrição do Ramalhete para podermos conhecer o Ega.

De onde venho, os livros engrossam por se dobrar os cantos às páginas, as folhas têm nódoas de café e marcas de cinza de cigarro de quem lhes imprimiu vícios enquanto lhes absorvia virtudes. Cresci a ver a minha mãe levar livros para banhos de imersão e o meu pai a carregar duas malas cheias de livros para férias de 15 dias, como se a separação fosse tão dura que não lhe fosse possível deixar o Herman Hesse sozinho ou como se, numa aflição, lhe pudesse ser imperativo consultar os diários do Miguel Torga no meio da praia. Eu tinha ciúmes dos livros por ver os meus pais passarem tanto tempo na sua companhia, percebi cedo que ali estava um prazer secreto, um mundo vedado ao meu analfabetismo infantil e que aquela era uma competição que jamais iria vencer.

As minhas interrupções sucessivas eram recebidas com enfado, murmúrios onomatopaicos e levantares de cabeça aborrecidos e curtos, para um novo mergulho naquilo que era muito mais interessante do que qualquer coisa que eu pudesse fazer ou dizer. Sentia-me um cão a rondar o dono para ir à rua ou a tentar chamar a atenção com algum truque, mas era recebida com a condescendência de quem tem na palma da mão um troféu muito mais cativante do que qualquer coisa que eu pudesse oferecer.

Do ciúme passei à curiosidade e da curiosidade ao deleite. Por nunca ter sido obrigação, passou a ser prazer. Por não ser imposição passou a ser impunidade. Por nunca me terem dito “tens de ler”, passou a ser “tens de parar de ler e ir pôr a loiça na máquina”.

Para mim, intimidade é troca de livro e partilha de estante. Ler o que alguém já sublinhou é olhar o seu olhar. Recomendação de livro é prova de fogo e acto de amor, um encontro na livraria é meio caminho andado, autocuidado é leitura e oferecer um livro a alguém é dedicar-lhe o que de melhor se leva da vida: uma boa história.

Ou, como escreveu Proust: “Enquanto a leitura for para nós a iniciadora cujas chaves mágicas nos abrem no fundo de nós próprios a porta das habitações onde não teríamos conseguido penetrar, o papel dela na nossa vida será salutar.”