IGAI investiga caso de adepto do Sporting que perdeu a visão depois de tiro da PSP com bala de borracha

Ricardo Santos vai apresentar queixa-crime por alegado abuso de autoridade por parte da PSP.

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Ricardo Santos queixa-se de ter sido vítima de abuso de autoridade por parte da PSP DR

Os festejos do título de campeão nacional do Sporting, em Lisboa, provocaram alguns feridos durante a madrugada de 12 de Maio, na semana passada. Um deles foi Ricardo Santos, 24 anos, atingido por uma bala de borracha disparada por um agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) na cara e, subsequentemente, perdeu a visão do olho direito. O caso está a ser investigado pela Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI), confirmou este organismo ao PÚBLICO. 

De acordo com a resposta do IGAI ao PÚBLICO, que faz referência ao despacho da inspectora-geral da Administração Interna, juíza desembargadora Anabela Cabral Ferreira, a situação “está a ser investigada pela IGAI no âmbito do inquérito aberto em 12 de Maio de 2021 por determinação do senhor ministro da Administração Interna.”

Ricardo Santos garante ao PÚBLICO que irá apresentar uma queixa-crime por alegado abuso de autoridade por parte da PSP. “Só espero que a justiça seja feita e que sejam apurados os responsáveis da polícia que deram autorização para [os agentes] dispararem contra a população que estava atrás das grades, numa zona mais pacata, onde havia até famílias”, diz.

Questionado se tentou desviar as grades ou se alguém à sua volta o fez, o jovem garante que “nunca tentaram tirar as grades”, que só foram desviadas depois de ter sido atingido para que os bombeiros o pudessem assistir. 

O adepto do Sporting garante ainda que, no local onde se encontrava, “foram disparados mais de 20 tiros” e “muita gente foi atingida”. “A polícia estava a disparar ao nível da cabeça”, assegura. Além da cara, ainda foi atingido na perna, acrescenta. O impacto foi tal que Ricardo Santos, assistido no Hospital de Santa Maria (que integra o Centro Hospitalar Lisboa Norte), levou 15 pontos entre a sobrancelha e a cana do nariz. “Se a polícia estivesse um metro mais à frente, se calhar, eu não estaria aqui para contar a história”, lamenta. 

No hospital, Ricardo Santos fez uma TAC (tomografia axial computorizada), que não detectou nenhuma outra lesão. Contudo, o jovem fala em “especulação” no relatório médico, uma vez que o documento refere que o adepto estava embriagado e pouco cooperante com os profissionais de saúde. “Escreveram o que quiseram no relatório médico. Já liguei, aliás, para o hospital a pedir o tipo de exame à alcoolemia que me fizeram e a taxa de álcool que tinha no sangue.” 

“Tenho testemunhas em como, antes de chegar ao Marquês de Pombal, parei num quiosque e comprei duas garrafas de água e um maço de tabaco. Foi o que eu bebi: água”, afirma. Contactada pela PÚBLICO, fonte oficial do Hospital de Santa Maria não comenta o assunto, uma vez que o estabelecimento é obrigado a manter a reserva da privacidade dos doentes.

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PSP diz ter sido obrigada ao uso da força pública durante festejos do título do Sporting, em Lisboa NUNO FERREIRA SANTOS

Neste momento, o adepto “leonino” não sabe se irá recuperar a visão do olho direito. O jovem, que trabalhava como estafeta de distribuição de comida num restaurante há cerca de um mês, diz também estar impossibilitado de trabalhar. 

A PSP divulgou, no dia 12 de Maio, um comunicado de 20 pontos no qual explica que se verificaram "comportamentos desordeiros e hostis por parte de alguns adeptos ali [imediações do Estádio José de Alvalade] presentes, relativamente aos polícias que se encontravam de serviço, obrigando ao uso da força pública, incluindo disparos com projécteis menos letais, para fazer cessar aquelas condutas perigosas”.

No Marquês, foi montado um perímetro de grades metálicas, “destinado a conter o elevado número de adeptos que ali se concentrou e a assegurar a integridade das faixas de circulação rodoviária”. Porém, “alguns adeptos deliberadamente derrubaram, em vários pontos, o gradeamento”, “comprometendo o perímetro policial e colocando em perigo a integridade física dos polícias e demais presentes”, lê-se no mesmo documento.