Saúde mental e pandemia – novos (e velhos) desafios

O grande desafio será a forma como nos vamos reerguer enquanto sociedade. De forma clara e consequente. Em que todos temos um papel e uma responsabilidade. A saúde mental é um assunto de todos e tarefa de todos nós.

Passado um ano de pandemia, e num momento em que a esperança ganha força, com a vacinação a avançar e os números a cair, interessa percebermos quais os principais problemas com que nos iremos deparar nos próximos tempos e quais os desafios que queremos abraçar.

Nunca se ouviu falar tanto de saúde mental, de ansiedade, depressão, fadiga pandémica, insónia… na televisão, nos jornais, nas redes sociais… Se é certo que muitos destes sintomas vão desaparecer à medida que formos retomando a normalidade das nossas vidas, também sabemos que as consequências a médio e longo prazo poderão ser mais graves e complexas de tratar. Vivemos uma crise de Saúde Pública, que é também uma crise económica e social da qual demoraremos a recuperar.

O grande risco é que aos antigos problemas, como a distância entre o sector social e o da saúde, o atraso na implementação dos Planos de Saúde Mental, adiando respostas já há muito propostas, se juntem agora novas questões, agravando vulnerabilidades e aumentando o fosso da desigualdade.

Entre os grupos de maior risco teremos, sem dúvida, as famílias afetadas pelas dívidas e pelo desemprego, com negócios e carreiras desfeitos, e os jovens que verão muitos dos seus sonhos e expetativas limitados, sendo provável que venha a aumentar o grupo dos que não trabalham nem estudam.

Se a pandemia trouxe novas oportunidades e houve famílias que viveram os desafios do teletrabalho e das aulas online como um reforço da sua relação, e bebés que tiveram o privilégio de ter por mais tempo os seus pais em casa, tivemos também o reverso da medalha. Os idosos ainda mais sós (duplamente confinados), os adolescentes limitados no seu desejo de autonomização e descoberta do mundo, e o silenciamento entre paredes das histórias das famílias disfuncionais, da violência, dos maus-tratos e abusos, mais longe dos holofotes das escolas e das respostas sociais. Assistimos ao aumento, nos últimos meses, do número e da gravidade das vindas à urgência de Pedopsiquiatria.

Entre os mais vulneráveis teremos também os imigrantes e refugiados, os sem abrigo e, de uma forma geral, as mulheres sobre quem continua a recair a maior parte do peso de tudo isto. Que se redobram em conciliar teletrabalho, filhos com aulas online e uma maior carga no que toca a tarefas domésticas.

Temos novas questões, como a do impacto da pandemia nos profissionais de saúde, em que o espírito de missão e a determinação foram determinantes na sua capacidade de adaptação ao que viveram e foi necessário fazer. Mas é fundamental que a organização do trabalho nos serviços de saúde, a adequação de recursos humanos e a existência de respostas de saúde mental para quem precisa se transformem de forma estruturante e sustentável.

E que dizer das pessoas com doença mental grave? Se os Serviços de Psiquiatria foram dos que conseguiram dar uma boa resposta, reorganizando-se, trabalhando em rede e aumentando o número de consultas, tornou-se mais gritante a crónica subcontratação de profissionais de saúde não médicos, a ínfima resposta que a Rede Nacional de Cuidados Integrados em Saúde Mental nos dá e a falta de respostas sociais, em áreas tão gritantes como, por exemplo, a resposta às pessoas com demência.

Mas também temos novas oportunidades, novos modelos de intervenção e de formas de organização do trabalho, que quebram a distância e permitem chegar a mais gente.

Precisamos de Cuidados de Saúde Primários fortes, que possam ter os recursos necessários para fazer prevenção e tratar os quadros psiquiátricos mais comuns e que se articulem, de forma eficaz, com os outros níveis de cuidados, identificando e orientando os mais graves. É urgente dotar os Serviços de Psiquiatria de adultos e os da Infância e da Adolescência com os recursos adequados para que, de forma articulada com os seus parceiros, possam desenvolver as respostas necessárias.

Mas o grande desafio é, de uma vez por todas, passarmos à prática e implementarmos as medidas que não são novas, que há muito estão nos nossos Planos e que agora, mais do que nunca, fazem sentido e são urgentes. Não basta falarmos muito de saúde mental para que ela melhore. Isso só acontecerá se tivermos uma sociedade mais coesa e solidária, se evitarmos que as desigualdades se acentuem, e se criarmos melhores respostas nos cuidados de saúde.

Se a pandemia desafiou a nossa capacidade de nos reorganizarmos e darmos resposta a uma situação nova e inquietante, ela é em si uma oportunidade de mudança, em que o grande desafio será a forma como nos vamos reerguer enquanto sociedade. De forma clara e consequente. Em que todos temos um papel e uma responsabilidade.

Já que a saúde mental é um assunto de todos e tarefa de todos nós.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico