Ana Gomes e a política externa portuguesa

O que procuram os que promovem a causa palestina como luta justa de um povo oprimido contra um opressor, contrapondo como solução uma sociedade religiosamente fanática e inimiga mortal dos valores do Ocidente?

Vi na televisão a indignação de Ana Gomes com a suposta fraqueza da posição de Portugal na questão israelo-árabe. Ana Gomes não tem dúvidas de que no Médio Oriente uma luta feroz opõe os bons aos maus. A sua autoproclamada generosidade e sentido de justiça levou-a a concluir que, também neste caso, os bons estão em situação de desfavor, numa luta desigual para com os maus que, por via de regra, são também ricos e poderosos.

Ana Gomes não tem aqui qualquer originalidade, limitando-se a reproduzir inconscientemente o que resulta, por um lado, da moldura subliminar da sua formação religiosa (apesar de hoje possivelmente recusar o exercício da respectiva fé) e, por outro lado, do seu maniqueísmo quanto ao significado da relação entre os fracos e oprimidos com os ricos e poderosos. Ana Gomes acredita que os judeus são culpados e os árabes são as vítimas e exige que Portugal honre o seu papel na História e no mundo colocando-se ao lado das vítimas, sendo essa a responsabilidade do Governo português.

Como qualquer cristão ao longo destes dois mil anos, Ana Gomes presume que os judeus são culpados da crucificação de Cristo e que esse crime relevará para todo o sempre. As perseguições que o mundo cristão dedicou aos que considerava como judeus estão infelizmente impressas nos preconceitos que constituem a matriz cultural das nossas sociedades ocidentais. A esta dimensão inconsciente – e não assumida – na esquerda radical, acresce outro mecanismo pavloviano que é o de considerar que os inimigos dos nossos inimigos, nossos amigos são. A esquerda radical, que considera que a religião cristã foi um mecanismo de dominação imperialista do mundo em benefício dos ricos e poderosos, concluiu há muito que, se os cristãos odeiam tanto os muçulmanos, é porque, lá no fundo, os muçulmanos é que têm razão. Simpatizante das causas árabes que confundem com muçulmanas, parte da esquerda ocidental assume a narrativa de que povo palestino foi ocupado por iniciativa dos judeus, que agora os exploram e oprimem.

Não é fácil, ou melhor é quase impossível, racionalizar comportamentos e explicar posições que resultam da fé, quando esta proporciona a explicação para todas as coisas. Acresce que, para tornar esta questão mais complexa, existe entre judeus, cristãos e muçulmanos a partilha, não só da matriz monoteísta, como de muitas das concepções e das regras que os seus seguidores devem observar para respeitar e honrar o seu Deus. As três religiões partilham de facto da visão do Mundo que os judeus imortalizaram por escrito num Livro construído ao longo de séculos, muito antes da nossa Era. A Tora, a Bíblia e o Corão não se contradizem, completam-se, embora reclamando individualmente a detenção única da verdade. Só que, se para os judeus a sua fé e o seu Livro existem como suporte da força da sua diferença e superioridade em relação aos outros, sem pretensões missionárias, para cristãos e muçulmanos o seu Livro encarrega-os de levar a palavra aos outros, submetendo-os sempre que necessário. A fé que para os judeus significa exclusividade, para cristãos e muçulmanos implica conquista. Sabemos da História que nunca existiu um Império Judeu, mas, pelo contrário, conhecemos muitos e variados impérios que se reclamaram do cristianismo ou do islamismo.

Curiosamente, Israel nunca foi na História uma nação dominante, mesmo no Médio Oriente de onde foi expulsa há dois mil anos pelos romanos. Inclusivamente aí, sempre foi uma entidade política e militar menor, submergida por outras como o Egipto, a Babilónia, a Assíria ou a Pérsia. No entanto, os judeus acreditavam na sua singularidade e na protecção que a fé lhes concederia. A religião é, sem qualquer dúvida, a explicação do milagre da sobrevivência dos judeus como povo e cultura, apesar de terem vivido, durante muito tempo, espalhados e itinerantes nas terras dos outros. Ao contrário de cristãos e muçulmanos, para quem o domínio das terras e das suas gentes foi sempre uma questão existencial. Sem terra e sem fronteiras para defender, os judeus destacavam-se nas actividades a que se dedicavam, fosse no comércio, na ciência ou na expressão artística. Por serem diferentes e porque por vezes assumiam posições de grande destaque, os povos que os aceitavam como vizinhos dentro de portas, despertavam ciclicamente para momentos de inveja e atitudes de desforra, com a desculpa de agirem em defesa da sua fé. As perseguições aos judeus são uma constante destes últimos dois mil anos, sendo que no século XX a loucura nazi ultrapassou em sadismo e determinação tudo o que as mentes doentes puderam ter imaginado até então.

A constituição do Estado de Israel em 1948 – um acto de justiça quase envergonhada da comunidade internacional à saída do inferno da Segunda Guerra Mundial para com um povo que correu o risco de exterminação total – não foi, no entanto, uma obra perfeita. Pelo contrário, a delimitação física seguiu em parte o que era a presença estabelecida de judeus que, desde os finais do séc. XIX, se vinham instalando no que consideravam ser a sua Terra Prometida, comprando terrenos e criando aí instituições próprias. Os ingleses, potência ocupante daquela parte do ex-Império Otomano, tiveram na altura a consciência de que as fronteiras eram indefensáveis, mas esse não seria já um problema inglês. A decisão de 29 de Novembro de 1947 das recém-criadas Nações Unidas, sob a presidência de um diplomata brasileiro, concordando com a constituição do novo Estado de Israel, não foi aceite pelos árabes aí instalados há mais de mil anos. Seguros das fraquezas do novo Estado, os árabes pegaram em armas logo a 15 de Maio de 1948, decididos a expulsar os judeus. Contra todas as expectativas, não conseguiram impor-se. Em resultado da derrota, acabam por abandonar as terras onde viviam e que tinham sido atribuídas a Israel, consequência que nunca tinha sido o objectivo dos colonos sionistas (a documentação histórica é irrefutável). Alguns dos campos criados na altura para estes refugiados árabes nos países vizinhos ainda hoje se mantêm, mais de sete décadas volvidas. Também os judeus que residiam legalmente em zonas atribuídas aos árabes se refugiaram, então, no que passou a ser Israel. Questões jurídicas sobre a posse de casas entre árabes e judeus em Jerusalém, que vêm desse momento, despoletaram a recente crise de violência entre as comunidades. O ódio e a vingança nunca perdem validade.

Ana Gomes sabe muito bem que os chamados territórios ocupados por Israel resultaram de guerras lançadas pelos países árabes com o objectivo assumido de destruir Israel, mas que afinal terminaram em derrotas militares para aqueles. Esses territórios, com excepção de Jerusalém e dos montes Golã, nunca foram anexados ao Estado de Israel, mas antes mantidos para a negociação política que confirmasse o direito à existência pacífica de Israel. As tentativas de solução para os territórios ocupados em 1967 foram várias e a procura da paz custou já a vida de um Presidente no Egipto e de um primeiro-ministro em Israel. Em ambos os casos, extremistas fanatizados pelas respectivas religiões assassinaram os seus próprios dirigentes que acusavam de traição.

Que a solução não é fácil é um facto que não precisa de confirmação. Que a questão israelo-árabe é uma ferida incendiária permanente é uma clamorosa realidade. Que superpotências como os Estados Unidos e a União Soviética, com grande poder e influência sobre as partes beligerantes, nunca lograram resultados positivos duradouros, é também parte da História. Mas como se pode ignorar as oportunidades perdidas do lado árabe, quando dirigentes de Israel tentaram no passado fazer a paz e encontrar um modo de vida comum? O que aconteceu em Gaza quando Israel se retirou e deixou aos palestinianos a responsabilidade pelo seu futuro? Fábricas de mísseis? Escolas de bombistas suicidas? A doutrinação dos jovens para a missão sagrada de destruição de Israel?

O que procuram os que promovem a causa palestina como luta justa de um povo oprimido contra um opressor, contrapondo como solução uma sociedade religiosamente fanática e inimiga mortal dos valores do Ocidente? Porque se declaram os ateus ocidentais aliados acríticos da variante mais tenebrosa de uma religião totalitária em que os únicos direitos são as obrigações de obedecer a Deus através dos seus porta-vozes, o dever da guerra ao infiel e onde as mulheres são consideradas como gado?

Impossível não acreditar que, lá no fundo, Ana Gomes não saiba que, se for a Gaza manifestar a sua solidariedade, corre o risco de ser degolada numa praia do mediterrâneo. Por isso, fica-se pela reprimenda televisiva.