Dinamite

Este país ainda conhece muitos reflexos dessa violência que está latente em muitos lares.

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"O medo está aqui comigo para me lembrar de que existo e de que a minha existência conhece uma finitude não negociável" Mag Rodrigues

Tenho voltado muitas vezes à infância por saber que vem dela o molde do que somos. Muitos galgam esse molde para não ficarem circunscritos ao funil estreito desses primeiros tempos, outros, como eu, querem perceber o que somos — o que sou agora — por causa do que vivi.

Lembro-me com nitidez da primeira vez que senti medo. É curioso que esse medo acabou por ser também o registo da minha existência. Antes do medo eu não existia. Um primeiro sentimento de desconforto e de algo que desconhecia não encontrou abrigo dentro do meu corpo pequeno. Era medo. Percebi imediatamente que era o medo.

Tínhamos vindo viver para uma casa cujo rés-do-chão era ocupado por uma família: um casal e quatro filhos. Aos poucos tornaram-se amigos ou então éramos nós que zelávamos por eles.

Logo no início da nossa convivência (há 45 anos?) a mulher bateu-nos à porta a gritar. Era vítima de violência doméstica. A primeira ideia de medo nasceu dali. Do desconhecido. Do que se podia desenhar e concretizar de alguém que pede ajuda. Como se estendem os nossos braços ainda pequenos para quem precisa de auxílio? Aonde chegam os nosso braços realmente?

Essa foi apenas uma das intermináveis noites de medo. O medo está aqui comigo para me lembrar de que existo e de que a minha existência conhece uma finitude não negociável.

Dormia um sono sem sobressaltos, o sono aconchegado pela mãe, num velho pijama de turco, quando fomos sacudidos por um bater de porta que quase a arrombava: o homem do rés-do-chão, ex-combatente de guerra, decidira dinamitar a casa onde todos vivíamos e tínhamos de sair dali muito rapidamente antes de ele poder accionar a sua raiva, a sua incompreensão, os traumas que nunca se trataram. Nessa noite fugimos escudados na nossa vulnerabilidade escondida num robe e ficámos sentados à espera que a madrugada se fizesse manhã e que tudo não passasse de um pesadelo.

A dinamite e a vontade de rebentar com a vida pelos ares era real, mas não se concretizou. Regressámos a casa de manhã, exaustos de medo (o medo é uma maratona que nem precisamos de correr) e perdoámos ao homem que nos deu cabo da noite mas que teimava em dar cabo da sua existência e da dos outros.

Muitos anos passados relembro essa noite pelo medo e pela irracionalidade que a acompanha. Demorei muito tempo a processar essa loucura de quem veio da guerra sem nunca assumir que precisava de ajuda ou sequer de admitir que muitos fantasmas continuavam ali presentes e podiam bater à porta de noite ou de dia. Entre família, amigos ou desconhecidos inocentes. Mas quem pode falar de inocentes depois de uma batalha travada?

O meu medo nasceu nessas noites em que procurei resposta para o que não entendi. A nossa capacidade de julgamento está connosco antes de qualquer possibilidade de compreensão. Aquele homem, o nosso vizinho, era só um homem estranho que eu não compreendia porque nunca ninguém me tinha explicado o que ele tinha vivido. E, receio, ele nunca contou a ninguém metade do que vivera.

Foi um pai instável, um marido violento, um vizinho que transbordava ternura e inquietação. Nessa noite em que preparou a dinamite que poderia ter rebentado com a nossa vida, justificou: “Poupei-os por gostar muito do João Paulo.” O João Paulo era o meu irmão. Nem ele, nem ninguém sabe muito bem porque foi ele a poupar as nossas vidas, mas eu, muito pequenina, não me lembro sequer de sentir raiva ou ódio. Sentia só medo do homem que podia ser doce e violento ao mesmo tempo.

O país terá sempre uma dívida para com todos eles. Poucos acompanhou, poucos ouviu. Encobriu a sua dor e a dos seus próximos para não destapar um problema maior, muito maior: um país com remendos na história.

A noite da dinamite fica comigo para sempre: a ideia de fuga, da incompreensão, a primeira noite que não via fim até chegar a manhã.

Não demorou muito para deixarmos essa casa mas a minha mãe continuou a acompanhar aquela família cuja instabilidade estava ao abrir da porta.

Eram ternurentos aqueles miúdos que se fizeram adultos crescendo sem respostas para tudo o que viram e ouviram do pai, abatendo-se sobre a mãe. Sobre eles.

Este país ainda conhece muitos reflexos dessa violência que está latente em muitos lares. Passou de pais para filhos. Nunca se procuraram justificações.

Na escola, eu acredito na Escola, essa era uma ferida que devia ser desenvencilhada, desarmadilhada, mas se calhar não temos braços, mesmo agora que já somos crescidos.

Anos mais tarde, quando perguntei por esse homem soube que se tinha juntado à comunidade cigana.

Era um nómada, apátrida. A guerra negou-lhe uma ideia de casa.

E assim morreu.