Sodoma e Gomorra

A OMS deixou de considerar a homossexualidade como doença há 31 anos. E se as “comissões da naftalina” vão perdendo poder, a verdade é que ainda há países no mundo onde a homossexualidade é criminalizada com pena de morte. E ainda há gente que sofre calada, angustiada e sozinha.

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A OMS deixou de considerar a homossexualidade como doença há 31 anos CLEMENS BILAN/EPA

Amanhã celebramos o Dia Internacional Contra a Homofobia. E esta data foi escolhida exactamente porque, a 17 de Maio de 1990, a Organização Mundial de Saúde deixou de considerar a homossexualidade como uma doença do foro mental e a retirou do Manual de Classificação Internacional de Doenças. Uma vitória para o mundo e especialmente para a comunidade homossexual, que, apesar dos avanços científicos na área, ainda via a sua orientação sexual ser considerada como uma inversão congénita.

Em termos históricos, sabemos, com certeza, que o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo sempre ocorreu de forma tão natural que o conceito de homossexual era mesmo inexistente. Algumas tribos melanésias, por exemplo, acreditavam que o conhecimento sagrado era transmitido apenas por meio do coito entre pessoas do mesmo sexo. Já na Grécia Antiga, onde era normal que um homem mais velho tivesse relações com um homem mais novo, Sócrates afirmava que o coito anal era a sua maior forma de inspiração. E se olharmos para alguns rituais religiosos da Babilónia ou para alguns registos das dinastias chinesas Sun, Ming e Qing percebemos também que eram frequentes as relações entre pessoas do mesmo sexo.

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"Sócrates ao encontro de Alcibíades na Casa de Aspasia", 1861, pintura de Jean-Léon Gérôme (1824-1904)

Foi com o fortalecimento das religiões monoteístas que se difundiu a ideia de que a sexualidade humana teria uma finalidade estritamente reprodutiva e, assim, relações entre pessoas do mesmo sexo passaram a ser encaradas como pecaminosas e contranaturais. De acordo com Santo Agostinho, por exemplo, os órgãos reprodutivos teriam como finalidade única a procriação, não podendo ser utilizados de nenhuma outra forma (a própria masturbação seria um pecado).

Uma curiosidade é que no século XIV, durante a muito mortal pandemia de peste negra, a luta contra a homossexualidade ganhou um novo vigor com a Igreja Católica a difundir a ideia de que a peste seria um castigo divino contra “a conduta imprópria de hereges e sodomitas”. E esta ideia de pecado permaneceria até ao século XIX, quando a perspectiva mudou e a homossexualidade passou a ser considerada uma doença mental. Assim, muitos foram os médicos que à época se empenharam e castração, choques, lobotomias e outras formas agressivas de terapia passaram a ser utilizadas para tentar descobrir uma cura.

Um bom exemplo destas “terapias” aconteceu nos campos de concentração da Alemanha nazi, onde mais de dez mil homens foram aprisionados e viram ser colocado nas suas roupas o famoso triângulo rosa invertido que os identificava como homossexuais. Estima-se que apenas cerca de 40% destes homens tenham conseguido sobreviver e, mesmo depois da queda do regime nazi e da libertação dos prisioneiros destes campos, os homossexuais foram conduzidos à prisão, uma vez que o parágrafo 175, que tornava os actos sexuais entre homens um crime, se manteve em vigor na Alemanha até 11 de Junho de 1994. Estes homens, que foram torturados em campos de concentração, foram submetidos a várias tentativas de “cura” através de tratamentos hormonais e relações sexuais forçadas com prostitutas.

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Homens identificados como homossexuais no campo de concentração nazi de Auschwitz, na Polónia auschwitz.net

Hoje sabemos que a orientação sexual não é uma patologia. Vários estudos provam que, do ponto de vista da saúde mental, não existem diferenças entre homens hétero e homossexuais, se considerarmos as mesmas condições de pressão social. Confesso que, antes de escrever esta crónica, li bastantes estudos e achei particularmente curiosos dois estudos com gémeos, citados pela American Psychological Association, e cujo resultado aponta para que uma das causas preferenciais da homossexualidade seja genética. Outros estudos interessantes (ainda que com limitações importantes) foram realizados por Simon Levay (que afirmou que uma região específica do hipotálamo era significativamente menor em homossexuais), por Bailey e Pillard e por Alan Sanders. E todos eles são unânimes ao afirmar que existe mesmo um componente genético para a homossexualidade. Unanimidade parece existir também no facto de que o desenvolvimento intra-uterino tem um importante papel na orientação sexual.

Mas o ponto aqui é que, quanto mais a ciência avança, mais se comprova que a homossexualidade é tão-só uma orientação sexual tão saudável como a heterossexualidade ou a bissexualidade. E é por isso que nenhuma pessoa minimamente informada pode concordar com as chamadas terapias de reorientação sexual que ainda se vão praticando e que envolvem aberrações como a administração de fármacos indutores de náuseas simultaneamente à apresentação de estímulos homoeróticos e a aplicação de choques nas mãos e genitais na tentativa de provocar um recondicionamento masturbatório. E são perigosos estes pseudotratamentos porque, para além de não resultarem, provocam danos físicos e psicológicos que podem levar ao suicídio.

Apesar de ser difícil estimar a prevalência exacta da homossexualidade, um estudo do Expresso concluiu que cerca de 7% dos portugueses seriam homossexuais. E se é verdade que é menos duro ser homossexual hoje do que há 20 anos, também é verdade que muitas vezes assumir uma orientação sexual diferente da maioria continua a não ser fácil.

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O Dia Internacional Contra a Homofobia é celebrado esta segunda-feira Alejandro Acosta/Reuters

Há uns tempos, um amigo dizia que nunca ia poder casar porque sabia que o seu casamento, com outro homem, seria uma infelicidade para os seus pais. E quando eu lhe sugeri que não os convidasse ou que fizesse uma cerimónia mais pequena, ele respondeu-me que para fazer “meios-casamentos” preferia estar quieto. E depois lembrei-me do Rui, que durante anos deu catequese comigo na paróquia e que um dia deixou Arquitectura para Design de Moda e decidiu, com a mudança de curso, que era hora de parar de fingir. Nesse dia assumiu a verdade que sempre conheceu e que durante anos, por medo, tentou reprimir: ele era um homem que gostava de outros homens. A parte mais idiota? O padre da paróquia decidiu que isso não era razão para ele deixar de frequentar a missa ou mesmo para parar de dar catequese. Mas a sagrada “comissão da naftalina”, como chamávamos ao grupo das devotas beatas, estalou de indignação e não sossegou enquanto não desfez a cabeça ao padre e despachou o Rui dali para fora. Sabem quem perdeu com isso? Nós todos. Ele era um homem fantástico e foi ser fantástico para longe.

A OMS deixou de considerar a homossexualidade como doença há 31 anos. E se as “comissões da naftalina” vão perdendo poder, a verdade é que ainda há países no mundo onde a homossexualidade é criminalizada com pena de morte. E ainda há gente que sofre calada, angustiada e sozinha. A minha mãe tem, como ela gosta de dizer, a antiga quarta classe, e, quando soube que o Rui era homossexual e que o queriam fora da paróquia, disse-me: “Dá vontade de ir lá perguntar como é que ele pode estar errado, se foi o Deus, a quem elas tanto rezam, que o fez assim...”

Estava certa a minha mãe, ainda que conversas sobre genética ou condições intra-uterinas a ultrapassem. Já o amor que ela carrega no coração, esse, não é ultrapassado por ninguém.