O comboio vai partir com destino a Oliveirinha

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A Linha da Beira Alta corre-lhe vizinha, um apeadeiro que já não tem a afluência de outros tempos indica Oliveirinha-Cabanas. Fico certo da chegada quando sinto a alteração do pavimento de asfalto para a trepidação do empedrado e reconheço as ruas sinuosas ladeadas de casas construídas noutra época, com grandes blocos de granito.

O Verão passado fiz umas férias em família diferentes do habitual e troquei o protector solar e a toalha de praia pelo desejo de conhecer a fundo a aldeia dos meus bisavós maternos. Apesar da pouca assiduidade, fomos recebidos com uma enorme emoção e quase uma disputa de boa vontade entre as vizinhas que, por não nos verem havia muito tempo, nos presentearam diariamente com ovos, bolos, tomates, lúcia-lima e avelãs de produção própria. Muitas vezes, chegávamos a casa e tínhamos sacos com algumas destas ofertas à entrada, o que só por si demonstra o à-vontade e a genuinidade das pessoas em meios pequenos, inexistente em ambiente citadino.

Enquanto lá estive, cuidei do espaço exterior da casa, arrumei as lojas (arrecadações no piso térreo da casa que serviam para guardar os animais e as pipas de vinho) e limpei, desenferrujei e afinei os travões da Órbita cor de laranja que os meus bisavós ofereceram à minha mãe quando completou dez anos. É claro que, ao passear naquele velocípede onde alguma petizada da aldeia começou a pedalar, inundei muitos olhos de comoção e reavivei muitas memórias de acidentes contra muros e paredes.

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Cada vez mais despida de gente como muitas regiões do interior do país, durante o dia conta essencialmente com população envelhecida, que se reúne em assembleia, no apelidado Largo da Oliveira, para discutir os assuntos do dia e organizar os eventos tradicionais da aldeia, como a festa e a procissão em honra da Nossa Senhora dos Prazeres, perto da Páscoa, que leva os mais crentes a colocar grandes colchas nas suas janelas.

À noite, no meio do silêncio de muitas casas, umas, que viram partir os seus últimos moradores e que só voltam a ver vivalma em Agosto, quando os descendentes vêm da Suíça ou do Luxemburgo passar férias à sua terra natal, e outras, com o candeeiro da salinha aceso a iluminar a divisão enquanto os habitantes dormitam nas poltronas e vêem a novela, o único sinal de vida nocturna é a A.R.C.O. (Associação Recreativa e Cultural de Oliveirinha), instalada no edifício da antiga escola primária, onde se junta a população activa no final do dia de trabalho.

Do outro lado da rua, também adormecida, hoje ocupando unicamente a função de casa de família, fica a história da antiga mercearia da dona Adelina, posto de correio da aldeia, onde a minha mãe ia atender os telefonemas dos meus avós quando lá passava temporadas no Verão e também centro de produção e venda do maravilhoso Queijo da Serra.

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Oliveirinha pertence à freguesia de Oliveira do Conde, no concelho de Carregal do Sal, distrito de Viseu, centro do país com riqueza de gentes, lugares, rios, gastronomia e história… parte da minha origem.

Manuel Salvaterra