Auxílio à terceira idade: Gota, um botão mais eficaz que o 112

O Gota é um aparelho que está a ser utilizado em várias freguesias do Porto para acompanhar idosos à distância. Vem com um botão SOS, detector de quedas e GPS.

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A tecnologia de assistência para idosos é um mercado em crescimento Adriano Miranda

Na União de Freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos (UFLOM), no Porto, desde o começo do ano que os mais idosos, que vivem sozinhos ou precisam de cuidados acrescidos, só têm de carregar num botão para pedir ajuda ou falar com alguém. Na maioria dos casos, levam o pequeno botão no bolso ou no pescoço como se fosse um colar.

“É uma coisa pequena, parece um coração. Se cairmos, dá logo sinal e chama ajuda”, descreve ao PÚBLICO Álvaro Galhardo, 89 anos. “Felizmente, no meu caso nunca foi usado dessa forma. Só para falar com a equipa da câmara. Ligam-me com frequência para saber como estou.”

Álvaro Galhardo é um dos 68 idosos da região que já está a utilizar o Gota, um dispositivo de SOS desenvolvido pela Click2Care que está a ser distribuído pela população desde Janeiro. O aparelho vem com um acelerómetro para detectar quedas, um GPS que permite aceder à localização do utilizador em tempo real e tecnologia para fazer e receber chamadas a qualquer hora — basta carregar no botão. 

Do outro lado da linha, está sempre um profissional da Human Talent, uma empresa especializada na gestão de acompanhamento de doentes crónicos. 

“Sinto-me mais seguro com o Gota”, admite Álvaro Galhardo, que vive sozinho há já alguns anos. “Isto é das melhores ideias porque me permite sair em segurança, sem medo e sem depender de ninguém. Sei que, se acontecer algo, as pessoas que me podem ajudar sabem onde estou.”

Ao todo, a UFLOM investiu 24.320 euros para comprar 80 equipamentos e subscrever aos serviços da Click2Care por dois anos, uma empresa que presta assistência a cerca de 8000 utilizadores todos os dias.

A tecnologia de assistência para idosos é um mercado em crescimento, com dados da Global Industry Analyst a indicarem que a área deve atingir os 34 mil milhões de dólares (perto de 28 mil milhões de euros) nos próximos seis anos, com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 5,6%. A pandemia da covid-19 trouxe mais atenção para a área devido às taxas de mortalidade do vírus SARS-CoV-2 em lares de idosos. 

Terceira idade sob vigilância?

“O grande objectivo deste tipo de tecnologias é devolver a independência e mobilidade às pessoas e diminuir o isolamento. A maioria dos nossos utentes são pessoas que têm posse de todas as faculdades mentais, mas têm algumas falhas motoras e podem precisar de ajuda”, resume Olivio Pereira, director comercial das Tecnologias Imaginadas, responsável pela tecnologia Click2Care. 

“A vantagem do nosso serviço em relação a uma chamada para o 112 ou para os bombeiros é que a pessoa da nossa Central sabe logo quem está a ligar através do Gota”, explica Olivio Pereira. “Por exemplo, sabem que é o senhor João que está em casa e tem problemas a lembrar-se de coisas. E isto facilita o processo.”

O uso de tecnologia de GPS para monitorizar crianças e idosos tem-se tornado mais popular, com vários produtos deste género a surgirem nos últimos anos. Só que se for utilizada de forma abusiva, sem o consentimento do utilizador, a tecnologia pode restringir direitos fundamentais como o direito à privacidade. 

“Todos os nossos utentes percebem a tecnologia a que estão a aderir, com representantes da Click2Care a prestar apoio na instalação”, sublinha Olívio Pereira.

Para aderir ao serviço da Click2Care — que ronda os 18 euros por mês (o aparelho, adesão e instalação custam 50 euros) — é preciso assinar os termos e condições do serviço que detalham a forma como o serviço funciona e o facto de a Click2Care poder ter acesso à localização do utilizador. “Nós não guardamos a localização das pessoas, nem as seguimos constantemente. Só recebemos esse tipo de informação numa situação de emergência.”

Grande parte das chamadas, porém, é de utentes que se sentem sozinhos. “A Click2Care dá acesso a uma voz amiga a qualquer hora. Grande parte da nossa intervenção não culmina na intervenção de bombeiros ou serviços de emergência”, nota Pereira.

Álvaro Galhardo diz que não está preocupado. “A câmara só vai ver a minha localização se acontecer algo. Não lhes interessa saber por onde estou a passear”, constata. “As pessoas não são obrigadas a usar isto. Se não querem, não querem. Não posso falar pelos outros, mas para mim usar o Gota é uma segurança extra quando saio de casa.”