Com a cerâmica, a Reshape quer moldar novos caminhos para quem sai da prisão

A Reshape, um negócio social da APAC, produz peças de cerâmica feitas por reclusos e antigos reclusos. Quer alertar para os problemas do sistema prisional e criar oportunidades de emprego e reinserção. “É uma forma de nós, reclusos, sabermos que ainda acreditam em nós e nos dão um voto de confiança.”

Na oficina da Reshape, como o nome em inglês indica, molda-se a forma de uma matéria-prima, o barro, para a transformar numa peça de cerâmica pronta a entrar em nossa casa. Mas, mais do que isso, a Reshape, um negócio social da APAC - Associação de Protecção e Apoio ao Condenado, criado no Verão de 2020, quer dar novo propósito e ajudar a reintegrar os trabalhadores da oficina: pessoas que estão, ou estiveram, em reclusão.

César chega poucos minutos antes das 9h ao espaço da Reshape Ceramics, em Arroios, partilhado com o projecto A Avó Veio Trabalhar. Prepara o grés, coloca o barro nos moldes, adiciona tinta, deixa-a secar e leva ao forno as peças já prontas, deixadas no final do dia anterior. Terminados todos os passos, a peça estará vidrada, as cores antes pintadas surgirão e ficará pronta a embalar. É um processo repetitivo, manual, onde a perfeição “quase não existe”, e não tem de existir.

“Para moldar algo é preciso tempo. E o mesmo acontece connosco, não mudamos de um dia para o outro. Precisamos de tempo para ganhar novas competências e rotinas”, afirma Duarte Fonseca, director executivo e co-fundador da APAC. “Reshape [em português, remodelar, reestruturar] depende de todos. Da sociedade, do sistema prisional, das próprias pessoas.”

Teresa Pacheco Miranda
Teresa Pacheco Miranda
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Teresa Pacheco Miranda

A Reshape Ceramics planeia, além de empregar antigos reclusos, entrar nos estabelecimentos prisionais para ajudar a reinserir na sociedade quem está em reclusão. Têm já uma segunda oficina no Estabelecimento Prisional de Caxias, mas que, por enquanto, e devido às limitações impostas pela pandemia, está parada.

Para César, antigo recluso, que prefere omitir o apelido, este é um tipo de projecto que faz “muita falta” nas prisões. “É uma forma de nós, reclusos, sabermos que ainda acreditam em nós e nos dão um voto de confiança. Sabermos que podemos mostrar um lado nosso que, até então, a sociedade não quis ver. Podem ver que tenho algum talento, que sei fazer alguma coisa além de um crime”, defende, em conversa com o P3, numa pausa de trabalho.

Descreve a sua rotina, durante o período que passou na prisão: saía da cela para tomar o pequeno-almoço, e regressava. Saía de novo, desta vez para almoçar, e regressava. Saía para estudar, no final das aulas jantava, e da cantina voltava para a cela. “A nossa diversão era jogar à bola no pátio, ou jogar às cartas. Nada que nos estimulasse para sairmos [da prisão] e dizermos ‘já sei fazer isto’. O sistema prisional é feito para reabilitar o cidadão. Mas isso não acontecia. Muitos dos que saíram voltaram a entrar, piores, com crimes piores. Falta um acompanhamento que nos estimule a orientar a vida noutro sentido.”

Duarte Fonseca foi uma das pessoas que ajudaram César a ingressar no mercado de trabalho, após sair em liberdade. Reencontraram-se quando, durante a pandemia, as oportunidades escassearam, e César procurava, de novo, um emprego. Em Fevereiro de 2021, sem saber nada sobre cerâmica, integrou a equipa da Reshape. “Eu era motorista, depois saí da prisão e formei-me em Ciência Política. Agora deixei o escritório para pôr as mãos na massa.”

Ambos concordam: o trabalho manual é benéfico do ponto de vista da reintegração. “Alguém que, como eu, tenha passado por certas situações na vida, já não tem muita cabeça para voltar a estudar. Eu felizmente consegui entrar na faculdade, mas poucos têm essa vontade. Não significa que sejam incapazes. Mas uma actividade mais manual, dinâmica, é mais estimulante do que estar focado nos livros”, explica ao P3.

César desloca-se com a ajuda de duas canadianas, mas diz conseguir cumprir todos os desafios que lhe são propostos, e lamenta que a sociedade ainda estigmatize pessoas com diversidade funcional, como estigmatiza reclusos ou antigos reclusos.

“[A Reshape] trabalha para mudar esse estigma. Dificilmente alguém de fora entra na prisão para trabalhar connosco. Não há uma integração constante que nos faça ter vontade de sair para sermos uma pessoa diferente”, defende o, agora, ceramista, de 32 anos. “É preciso quebrar um ciclo. Condenar o bandido, mas salvar o homem.”

As peças de cerâmica da Reshape podem ser adquiridas online, no site da oficina, e custam entre 8 e 16 euros. Segundo o director executivo, as receitas do negócio tornarão a APAC financeiramente mais sustentável, ajudarão a impactar mais vidas, a manter e criar mais postos de trabalho.