Só que não

E se Marta Temido gerisse assim a crise sanitária? E se Mendes Godinho gerisse assim a crise e o setor sociais? António Costa tem um excelente ministro da Administração interna, só que não.

Ser Governo não é fácil, sobretudo na travessia do desafio maior de uma pandemia. A dificuldade coletiva de um executivo é o resultado da soma do exercício difícil de, individualmente, ser governante, no papel de ninistro ou de secretário de Estado.

A caminho da celebração de meio século de Democracia no nosso país, os portugueses já assistiram a muitos erros de governação, a demissões como assunção efetiva da responsabilidade e a outras mais levianas ou banais. A geração dos meus avós, que cresceu no antigo regime, já se habituou a ver a demissão como uma consequência política, em nome da legitimidade que se impõe – e fomenta essa exigência crítica. A geração dos meus pais ainda mais, porque ganhou consciência cívica durante e após a revolução dos cravos. A minha geração, que é a dos jovens adultos de hoje, espera mais da política, por ser a mais formada e informada – embora isso não seja, infelizmente, sinónimo de melhor informação.

Um ministro ou secretário de Estado não pode ser exonerado ou demitir-se só porque sim, mas também não o pode ser só porque não, mesmo em nome da estabilidade política, que todos prezam – eleitos e eleitores – mas que desprezam se for a qualquer custo.

Eduardo Cabrita é ministro na sequência da demissão de Constança Urbano de Sousa, que pediu para sair depois do fracasso da gestão dos incêndios florestais. O lugar que o atual ministro veio ocupar, em 2017, ficou disponível por muito menos. O que temos é um não ministro – cada vez mais não e cada vez menos ministro.

É o caso da morte do cidadão ucraniano, a reestruturação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o Zmar e a ausência de uma estratégia de prevenção nos festejos do campeonato nacional de futebol, independentemente do vencedor, que revelam a degradação política de um ministro que tem ficado aquém das exigências. Qualquer clube vitorioso, previsivelmente, juntaria uma multidão de adeptos, sem regras, com mais ou menos saudades do título. O que falhou na floresta e nos fogos florestais falhou no caso da multidão eufórica em plena pandemia: a prevenção e o controlo. Cada caso na sua escala, na sua proporção e no seu contexto. Contudo, ambas as realidades falharam e deram espaço ao pior porque não conseguiram antecipar, agindo, ao invés de reagir.

O que é diferente, no que respeita ao atual ministro da Administração Interna, é a indiferença e a inconsequência do seu papel e da sua responsabilidade. Cabrita é o problema de que Costa não precisa, sobretudo num momento tão particular da nossa vida coletiva. E se Marta Temido gerisse assim a crise sanitária? E se Siza Vieira gerisse assim a crise económica e o Plano de Recuperação e Resiliência, do debate à prática que se espera seja eficiente e rigoroso? E se Mendes Godinho gerisse assim a crise e o setor sociais? São os colegas de Eduardo Cabrita, noutras tutelas, e o próprio capital político de António Costa que garantem o saldo de empatia e competência que permitem balancear o caso deste ministro. Ao mesmo tempo, é o trabalho dos outros governantes que compensa esta nódoa governativa, cuja reputação sai beliscada na dimensão singular de cada um dos responsáveis que dão o melhor de si à frente de outras pastas.

Recorde-se que as forças de segurança, sob a tutela do ministro da Administração Interna, são um nicho eleitoral que sustenta a ascensão do Chega, o partido de extrema direita em Portugal com assento parlamentar.

António Costa tem um excelente ministro da Administração interna, só que não.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico