A violência nas relações de intimidade: prevenir e quebrar mitos

Os casos de violência sobre as mulheres acontecem todos os dias e são transversais a toda a sociedade independente da idade, da etnia e do nível socioeconómico das vítimas.

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@petercalheiros

Na passada terça-feira, 11 de Maio, assinalaram-se os 20 anos da Convenção de Istambul, o tratado pan-europeu de prevenção e de combate à violência sobre as mulheres. A violência sobre as mulheres na intimidade é largamente conhecida como um grave problema de direitos humanos, sendo de relembrar que o Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR registou entre 2004 e 2019 um total de 534 vítimas de femicídio nas relações de intimidade (RI) e relações familiares (RF) e 614 vítimas de tentativa de femicídio nas RI e RF.

Os casos de violência sobre as mulheres acontecem todos os dias e são transversais a toda a sociedade independente da idade, da etnia e do nível socioeconómico das vítimas. De forma lamentável, as crianças são envolvidas nesta dinâmica de violência e acabam por presenciar agressões, insultos, ameaças ou, de forma mais agravada, a morte violenta da própria mãe ou de uma figura importante da sua vida.

Diversas variáveis poderão influenciar a forma como o ciclo da violência se transmite através da observação pelas crianças e adolescentes da relação do conflito entre os pais. A exposição ao conflito afecta sobretudo a forma como estas irão resolver os seus conflitos relacionais, mas também o desenvolvimento futuro das suas relações amorosas. Sobretudo nos rapazes, estas experiências de conflito interparental legitima o abuso e prediz a ocorrência de comportamentos abusivos para com o seu par no namoro e, de futuro, no casamento. As raparigas acabam, muitas vezes, por ser educadas para aceitar a dominação.

Outros factores que podem favorecer a emergência de comportamentos agressivos no contexto de intimidade, além das práticas parentais maltratantes, são o abuso sexual na infância, os comportamentos anti-sociais, o género, a idade, o nível socioeconómico, a área de residência, as competências de comunicação, a violência na comunidade, o consumo de álcool e/ou drogas.

Os estudos apontam para uma maior correspondência entre as relações de namoro violentas e os casamentos abusivos, pelo que, neste sentido, importa actuar junto da população mais nova, quebrando o ciclo da violência. A investigação demonstra que, caso a relação amorosa abusiva perdure, a frequência e a gravidade da violência tende a aumentar constituindo um factor preditor da violência conjugal. Estas relações são muitas vezes pautadas por estratégias de restrição e de controlo da autonomia da mulher com um forte impacto imediato nas vítimas, que se encontram muitas vezes em situação de fragilidade e de desprotecção, com sintomas depressivos, baixa auto-estima e insatisfação relacional.

Importa actuar com medidas preventivas desde cedo, sobretudo junto dos adolescentes, dado que o abuso íntimo pode ter início nesta faixa etária, período marcado por labilidade emocional e caracterizado por significativas alterações desenvolvimentais. Ademais, dado tratar-se de uma fase durante a qual se estabilizam os papéis de género, a adolescência torna-se um período crítico para desmontar mitos sobre a intimidade e o “amor incondicional” que muitas vezes são postos à prova de forma prejudicial à vítima.

Estando o fenómeno da violência ligado às representações sociais, há uma forte influência de tudo o que nos rodeia e as crenças surgem como consequência das percepções que construímos. Neste sentido, os pais e outros educadores têm um papel fundamental para alterarem as mensagens sociais e culturais em torno da normalização e da aprovação da violência na intimidade. São exemplos de mitos e crenças que precisam ser quebrados, como por exemplo:

  • “Quando se gosta de uma pessoa deve-se fazer tudo o que ela quer”;
  • “Quem ama perdoa a violência”;
  • “As explosões de raiva são normais”;
  • “Os namorados podem ver quando quiserem o telemóvel, o e-mail e as redes sociais do outro e exigir conhecer a palavra passe”;
  • “O comportamento agressivo ocorre em reacção ou provocação do outro e por isso deve ser perdoado”;
  • “Posso divulgar fotos da minha namorada sem lhe pedir”.

Importa, ainda, ajudar os mais novos a saberem distinguir entre os sentimentos e os comportamentos abusivos como, por exemplo, o amor e o ciúme, recusando a normalização deste último para limitar a liberdade da outra pessoa, impedindo-a de se relacionar com outras pessoas de quem também tem direito de gostar.

Os psicólogos e outros profissionais que lidam com crianças e adolescentes, como médicos e professores podem desempenhar um papel importante na prevenção e na modificação de mitos e crenças culturais subjacentes à violência, centrando-se no desenvolvimento social e emocional daquela população, em concreto, enfatizando a construção de competências transversais de vida, como a regulação emocional, as competências de comunicação, o compromisso com a educação e com o trabalho, a resolução de problemas, a melhoria das relações sociais, a redução dos comportamentos de risco, a resolução de conflitos sem recurso à violência e a resiliência.