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Os verões infinitos da adolescência são intemporais? Computer says no

©Sven Jacobsen
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As páginas de Like a Bird, o fotolivro de Sven Jacobsen, estão repletas de fotografias de adolescentes e jovens a "experimentar coisas". Há nelas jovens que saltam, de forma exuberante, para a água, que trepam muros, redes, postes, que correm ou fazem acrobacias sobre dunas. Os jovens de Jacobsen têm o Verão nas mãos e "queimam" tempo como se ele nunca terminasse. Trocam beijos apaixonados, andam de skate, desafiam os limites das sensações. "Crescer, há 20 ou 30 anos, era assim", constata Nadine Barth, nas linhas que enchem o nostálgico prefácio do fotolivro editado recentemente pela Hatje Cantz.

Barth prossegue: "Ninguém olha para o telemóvel, ninguém tira uma selfie, ninguém joga consola." Assim era a adolescência e a juventude da era pré-digital — ou, pelo menos, da era pré-smartphone e, já agora, pré-pandémica. Há duas ou três décadas, para fazer uma fotografia era necessária uma câmara fotográfica e um rolo de filme fotográfico; para filmar era preciso ter acesso a uma câmara que funcionava a cassetes; para partilhar um vídeo, era necessário entregá-lo em mãos, em VHS. E nem todos tinham a sorte de poder jogar videojogos, esse era um privilégio de apenas alguns. Apesar disso, nesse tempo "a realidade era tangível", "não se vivia apenas diante da sua representação", remata Barth. 

As imagens do fotógrafo alemão não terão 20 ou 30 anos, serão mais recentes. É impossível determinar, porém, a que década pertencem ou onde foram capturadas — e ocultar essa informação foi uma opção expressa do autor, cuja intenção foi captar, em estado puro, o rasgo de rebeldia que caracteriza a adolescência e traduzi-lo, da forma mais simples possível, em imagem fotográfica. 

Nas décadas mais recentes, com o smartphone como extensão "natural" de cada adolescente, existirão também momentos semelhantes aos que registou. O fotógrafo sabe-o. Sabe também que, com a desmaterialização parcial da vida social forçada pela pandemia, muitos jovens sofrem um adiamento desses momentos de liberdade, de experimentação e crescimento. O "Verão infinito" patente nas imagens, cujo odor é quase palpável, torna-se mais finito no actual contexto pandémico. Like a Bird lembra, assim, que nem todos os adolescentes têm o privilégio, hoje, de serem pássaros. Computer says no.

©Sven Jacobsen
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Capa do fotolivro Like Birds de Sven Jacobsen, editado pela Hatje Cantz
Capa do fotolivro Like Birds de Sven Jacobsen, editado pela Hatje Cantz
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