A escola nunca mais será a mesma

Os dados sugerem a possível existência de um ceticismo docente, sobretudo marcado pela desvalorização da escola e da sua profissão ao nível da sociedade, não tendo a pandemia trazido para a ribalta nem as escolas, nem os professores.

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Nuno Ferreira Santos

Se a pandemia de covid-19 mudou por completo o quotidiano das pessoas, o encerramento das escolas integrará, decerto, qualquer lista que enumere os aspetos mais significativos ocorridos desde março de 2020, mesmo que a durabilidade dessas mudanças possa corresponder a situações muito diferentes, em geometrias variadas.

No caso português, há dois períodos que balizaram o ritmo escolar e que obedeceram à mesma sequência: ensino à distância, de março a junho de 2020, com algumas exceções marcadas pelos exames nacionais; ensino presencial, de setembro de 2020 a janeiro de 2021; de fevereiro (considerando a interrupção das atividades letivas de 22 de janeiro a 5 de fevereiro) a abril de 2021, regresso ao ensino à distância; de abril de 2021 até ao final do ano letivo, como é expetável e desejável, retoma do ensino presencial.

Sobre os dois primeiros períodos referidos há diversos estudos, como é o caso do que foi realizado, recentemente, por investigadores da Universidade do Minho, se bem que o propósito não tenha sido o da recolha de dados a partir de uma amostra significativa a nível nacional nem estratificada por níveis de ensino, mas sobretudo o de estudar as perceções dos professores sobre o ensino à distância e o ensino presencial. A utilização de uma amostra aleatória permitiu esboçar uma tendência de respostas, sem qualquer possibilidade de generalização, por exemplo, a de dizer que, na perspetiva dos professores inquiridos, houve uma resposta muito positiva relativamente às atividades escolares desenvolvidas no contexto da pandemia.

Mais do que um problema, a adoção do ensino à distância foi uma solução eficaz para responder aos desafios impostos pela pandemia, com a preparação, em tempo mínimo, de atividades de ensino à distância, que se revelaram adequadas.

Porém, e pela análise dos dados qualitativos extremamente ricos em informação, porque expressam o que os professores quiseram escrever sobre a sua nova situação, quer no ensino à distância, quer no ensino presencial, é possível identificar como questões problemáticas a avaliação das aprendizagens, a não-realização das aprendizagens previstas, o aumento das desigualdades entre os alunos, a insuficiência do apoio pedagógico e a falta de recursos informáticos, incluindo a ligação à Internet.

Sobre o ensino presencial — ainda não totalmente normal, devido à necessidade de serem cumpridas as regras sanitárias, e num espaço que exige o uso de máscara, o que faz toda a diferença em ternos de ensino e aprendizagem —, os professores sublinham que este é a modalidade de ensino mais eficaz para a aprendizagem e a sociabilidade, reconhecendo, ainda, que os alunos, no regresso à escola, evidenciaram um atraso nas aprendizagens e mostraram uma maior necessidade de apoio pedagógico.

Sobre os itens que revelam ou não satisfação dos professores, os dados sugerem a possível existência de um ceticismo docente, sobretudo marcado pela desvalorização da escola e da sua profissão ao nível da sociedade, não tendo a pandemia trazido para a ribalta nem as escolas, nem os professores.

A discordância revelada pelos professores que colaboraram nesse estudo em relação às medidas do Ministério da Educação é decorrente do período em que os dados foram recolhidos, de 11 a 29 de janeiro, em que as escolas regressaram, na sua generalidade, ao ensino presencial, sob condições sanitárias bem conhecidas, sem a divisão de turmas e sem que os professores estivessem incluídos nos grupos prioritários para vacinação, como veio a acontecer mais tarde.

Mesmo assim, quando se fala do futuro de uma escola digital, os professores inquiridos dizem que é seu dever profissional adaptarem-se aos novos tempos, tendo o ensino à distância obrigado a uma mudança de práticas, algumas vindo para ficar, independentemente da modalidade de ensino.

Olhando para o futuro, os professores que responderam ao questionário estão bastante confiantes numa educação para a cidadania baseada em problemas globais e locais. Pelo lado dos docentes, nas questões abertas, a questão mais evidenciada é, sem dúvida, a da avaliação da aprendizagem, que exigirá práticas inovadoras e menos centradas nos resultados.

A pandemia tem sido um enorme desafio para a educação no seu todo, mais ainda para a educação de infância (até aos três anos), para a educação pré-escolar (dos três aos seis anos) e para os ensinos básico e secundário, levando os professores a superar diversos desafios, nomeadamente a adaptação a diferentes contextos pedagógicos, o ensino através de plataformas tecnológicas e a alteração de rotinas escolares.

Os professores inquiridos reafirmam a expectativa de que ninguém fique para trás, bem como a certeza de que a escola nunca mais será a mesma, concluindo que todos aprenderam algo de relevante com esta situação de exceção.


O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.