Até quando, Israel?

Que há fanatismo dos dois lados, sem dúvida. Que a análise é complexa, certamente. Mas vamos esgrimir argumentos religiosos e históricos ou vamos pensar nas pessoas que estão a sofrer? Querem ter razão, seja ela qual for, ou ter coração?

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No hospital em Dura, uma cidade perto de Hebron, uma mãe beija o seu filho que foi morto durante os confrontos com o exército israelita ABED AL HASHLAMOUN/EPA

Ninguém que tenha um pingo de humanismo e que fale de liberdade sem se engasgar deveria ficar indiferente ao que se passa na Palestina. Israel nem disfarça quer nos actos, quer nas palavras, que têm como objectivo aniquilar a Palestina. Já é tempo que a palavra “pátria” se substitua por “pessoas”, e que qualquer identidade religiosa se dilua no conceito de humanidade, que é a única coisa que nos une. Já não se admite que uma qualquer política se imiscua com uma qualquer religião, e que se legitime um regime de discriminação revoltante, para todos os que comungam dos direitos humanos, por aquilo que “alguém” disse há 3000 anos. Isto chama-se fanatismo. Que o há dos dois lados, sem dúvida. Que a análise é complexa, certamente. Mas vamos esgrimir argumentos religiosos e históricos ou vamos pensar nas pessoas que estão a sofrer? Querem ter razão, seja ele qual for, ou ter coração?

No Aeroporto de Ben Gurion, Telavive, tive quer à entrada, quer à saída, horas e horas de um penoso interrogatório quando disse que ia trabalhar na Faixa de Gaza. Eu até posso perceber isso, até porque o meu passaporte tem muitos inimigos de Israel: Paquistão, Síria, Afeganistão, Iraque, etc.... O que já me custou um pouco mais a engolir foi que me obrigassem a não usar a palavra “Palestina”, e me impusessem que substituísse por “territórios”. Perguntaram-me os apelidos dos meus pais, dos meus avós e dos meus bisavós. Perguntaram-me os nomes das pessoas com quem eu trabalhei quer na Faixa de Gaza, quer em todas as minhas missões em países árabes ou muçulmanos. Perguntaram-me quem é que me convidou para cada um destes sítios, e nunca ficaram satisfeitos com a resposta “Médicos Sem Fronteiras”... Queriam nomes de pessoas a todo o custo. Dei-lhes o que tinha: a verdade.

A parte histórica de Jerusalém é linda e tem uma história com contornos mágicos. Mas o ar, para mim, é irrespirável porque eu não suporto o cheiro a ódio que se sente a cada esquina. Há uma narrativa encantada que as religiões coabitam em harmonia dentro de um quilómetro quadrado, mas é a mais pura das mentiras. Se os marcos cristãos (católicos, coptas e arménios) existem essencialmente como pontos de atracção de culto dos seus fiéis que estão de passagem, o que se sente entre judeus e muçulmanos é que não se tocam, não se falam, não se cruzam nem se vêem. Não existem uns para os outros, e usam rotas pela cidade, quer dentro, quer fora das muralhas distintas, para que desprezem a existência do outro. No Muro das Lamentações senti o mesmo fanatismo duma madrassa no Paquistão, e na Mesquita de Al-Aqsa não senti nada, porque não me deixaram entrar, por não ser muçulmano. Tive pena, porque, ao longe, do monte das Oliveiras, parece ser dos edifícios mais bonitos do mundo. É assim, é o país com mais rótulos, mais divisões e mais segregação entre pessoas que eu conheci até hoje.

Bem no coração das muralhas de Jerusalém, enquanto esperava pelo meu falafel, um homem fez-me as típicas perguntas de circunstância. De onde eu vinha, e o que estava lá a fazer. E eu disse que era português e era médico. Perguntou-me onde é que eu trabalhava. E eu disse-lhe que tinha estado a trabalhar na Faixa de Gaza. O senhor começou a chorar. São 70 quilómetros de distância dali ao resto do seu povo, da sua família que talvez nunca mais voltará a ver na vida. Não me deixou pagar. Eu insisti.

Fui visitar o Museu Yad Vashem. É um mergulho profundo pela história, imperdível. A construção da narrativa, a construção dos guetos, a humilhação, os comboios, os campos de concentração, as câmaras de gás, estão lá todos os horrores do Holocausto, e bem, para que as memórias tristes do passado nos permitam a construção de um futuro melhor. Exaustivamente têm o nome de todos e cada um dos milhões que morreram pela mão da crueldade do Homem. Mas o que é mais revoltante é que quem construiu este que é um dos melhores museus que eu já vi na vida está, no presente, a fazer igual ou pior, praticamente do outro lado da rua, em Belém, e no resto, ou nos restos do que sobra da Palestina.

Das experiências mais duras emocionalmente da minha vida, foi passear pela Cisjordânia. Cidades palestinianas que são como que ilhas rodeadas pelo Exército israelita que está nas estradas, de metralhadora, com o dedo no gatilho. À entrada das cidades palestinianas, lê-se em hebraico “Proibida a entrada a Israelitas” e nos entretantos vêem-se colonatos de bandeirinhas azuis e brancas a brotar como cogumelos, porque “alguém” disse que aquela era a terra prometida. O caso mais gritante é em Hebron, onde pelo meio da cidade há fronteiras bem definidas para religiões e passaportes, e onde os colonatos de judeus fundamentalistas expurgam os palestinianos do coração da cidade. A política é um instrumento para lutar pela felicidade do maior número de pessoas. Isto não é política, isto é pura maldade.

A Faixa de Gaza é uma prisão, e os guardas prisionais são israelitas, que não entram lá, mas doseiam o que é que pode entrar de água, comida e até, claro, de ajuda humanitária. Metem-nos numa gaiola e depois dão-lhes migalhas. E dentro destes muros feitos de raiva, não é surpresa que prolifere o radicalismo e o extremismo político e armado na figura do Hamas, que, à semelhança da política israelita vigente, são inimigos da humanidade, inimigos das pessoas. De todas as pessoas.

Se a democracia é feita de votos e de opiniões, eu tenho vergonha de compactuar, calar e consentir, de fingir que não vejo o plano desprezível dos líderes políticos israelitas com fundamentos religiosos medievais de querer aniquilar um povo por falar outra língua e por ter outra religião. É só isso.

Até quando, Israel?