Desbloquear uma geração

As novas gerações não desistem do seu país e é nele que querem construir a sua vida. Temos de ter a capacidade de não desistir da juventude portuguesa.

A juventude portuguesa tem enfrentado diversos desafios ao longo das últimas décadas e sucessivos entraves à prossecução do projeto de vida que cada jovem ambiciona para si. Estes bloqueios aparecem em várias frentes, e por vezes simultaneamente, desde a educação que tarda em funcionar como um verdadeiro elevador social, o difícil acesso a emprego de qualidade e bem remunerado, os bloqueios significativos no acesso à habitação e à emancipação, a tardia constituição de família – em síntese, uma geração que se encontra permanentemente adiada e um país que tarda em olhar para o futuro.

A pandemia gerou uma situação sem paralelo na história recente, com as consequências económicas que todos conhecemos. No entanto, as consequências da pandemia vieram apenas agravar o impacto de todos os bloqueios, que tendem a manter-se como barreiras estruturais na vida dos jovens há várias gerações.

A conclusão é óbvia – não é fácil ser jovem em Portugal.

Qualquer jovem português sentiu a vida marcada pela palavra crise. Não há realidade mais constante na vida das novas gerações do que a situação de permanente crise, que tem transformado sucessivamente o nosso país num cais de despedidas de talento, valor e oportunidades. Geração atrás de geração, os jovens não conseguem singrar ou realizar o seu projeto de vida no seu país. Geração atrás de geração, os jovens veem os seus sonhos adiados, suspensos na promessa de um futuro melhor ‒ que acaba sempre comprometido pelas escolhas e circunstâncias do presente.

O país não tem sido capaz de estar à altura das suas gerações mais novas, pelo que devemos perguntar-nos: o que temos feito para garantir mais oportunidades, para oferecer mais futuro aos jovens do nosso país? Que Portugal estamos a construir para as gerações vindouras?

As novas gerações voltam a ser das mais prejudicadas com a atual crise pandémica, económica e social – um autêntico rolo compressor que destrói o presente para milhares de jovens do nosso país e compromete os seus projetos de vida. Não teremos um país decente, desenvolvido e justo enquanto não tivermos uma juventude emancipada, independente, capaz de se autonomizar, capaz de olhar o futuro com esperança, sabendo que o seu país valoriza o seu talento e a sua qualidade.

Ao fim de quase 50 anos de democracia e mais de três décadas de integração europeia, com os avanços significativos e inquestionáveis que estas realidades permitiram e consolidaram, é também inegável que Portugal continua a ser um dos países mais pobres da União Europeia, ultrapassado por países que são independentes há apenas três décadas, como os bálticos e os países do leste europeu.

A pobreza e o atraso crónico face à Europa têm um impacto brutal nas oportunidades e no projeto de vida de cada jovem português que são, entre os jovens europeus, dos que mais tarde saem de casa dos seus pais ‒ uma situação que se vem a deteriorar. Um país no qual, segundo dados ainda de 2018, os jovens são o grupo etário com uma taxa de risco de pobreza mais elevada. Já contando com as transferências sociais, quase 20% dos jovens com menos de 18 anos encontram-se nas garras da pobreza e da insuficiência económica. Que país estamos a construir quando, mesmo com transferências socais, um em cada cinco jovens vive no limiar da pobreza?

Um país que regista hoje uma das taxas de desemprego jovem mais elevadas da União Europeia, a que se juntam milhares e milhares de jovens que não estudam nem trabalham. Os dados indicam que um em cada quatro jovens portugueses estão hoje desempregados.

É urgente resolver este problema, agravado pela pandemia, com mais ação, mais respostas ousadas que incentivem projetos empresariais liderados por jovens, que incentivem a contratação e a manutenção de emprego jovem por parte das empresas, e menos propaganda, visto que essa não gera um único emprego. Seja para a crise de hoje, seja para outras no futuro, não podemos ter as novas gerações numa situação tão frágil e vulnerável.

Um país que conta com uma geração jovem qualificada, cosmopolita, europeísta, aberta ao mundo, ativa no mundo cultural, uma geração que se mobiliza pelo planeta, pela cidadania, igualdade e responsabilidade social, que não descura o seu percurso académico e profissional, mas que não recebe em troca mais do que 700€ de salário mensal, mesmo com uma licenciatura ou um mestrado.

Os jovens não precisam de continuar a ouvir elogios ocos por serem a “geração mais qualificada de sempre” se essa qualificação – tão elogiada – não for acompanhada de uma remuneração própria de um país europeu e de uma economia desenvolvida.

As novas gerações exigem um país com igualdade de oportunidades – económica, social, territorial, cultural. Um país em que o que alcançamos na vida está mais relacionado com o esforço e o trabalho de cada um, e não é enviesado por um sistema distorcido, onde a cunha, o favor ou a rede de contactos substituem a Educação como elevador social. Um país onde quem nasce pobre não tem de esperar cinco gerações até sair da pobreza.

As novas gerações precisam de um país que seja capaz de ter uma economia forte, robusta e competitiva, com um crescimento sustentável, caracterizada por melhores empregos e melhores salários, que vença o atraso crónico de Portugal, capaz de convergir e descolar da cauda da União Europeia.

As novas gerações exigem uma economia que não estigmatiza quem investe, quem arranca com o seu próprio negócio, uma economia que não é soterrada por um sufoco fiscal, uma economia que valoriza quem cria riqueza, condição sem a qual não conseguimos fortalecer o Estado Social e proteger os mais vulneráveis da nossa comunidade ‒ dos mais jovens aos mais velhos.

Uma economia e uma sociedade – da escola ao mercado de trabalho, do Estado às empresas – que se preparam para a economia digital, em que os novos modelos de negócio e o avanço da robotização e da inteligência artificial representam mais oportunidades para Portugal e para as novas gerações, ao invés de um ainda maior atraso face aos países mais desenvolvidos.

As novas gerações não desistem do seu país e é nele que querem construir a sua vida. Temos de ter a capacidade de não desistir da juventude portuguesa.

O país tem de ser capaz de aproveitar os novos fundos europeus para, finalmente, construir um Portugal de oportunidades para as novas gerações. Não podemos desperdiçar esta oportunidade. O país não precisa de uma utilização dos fundos europeus à boa moda socialista: despejar dinheiro para cima dos problemas dos jovens, sem os resolver estruturalmente.

Os fundos com vista à recuperação económica e social da atual pandemia da covid-19 constituem uma oportunidade para transformar este momento de disrupção, incerteza e dificuldade, num ponto de inflexão do atual paradigma de abandono na resposta aos problemas enfrentados pelas gerações mais novas.

É necessária uma visão reformista no âmbito da aplicação dos fundos europeus para os vários domínios da vida da juventude portuguesa. Os fundos europeus são uma oportunidade – mais uma – para resolver alguns dos problemas dos jovens portugueses, mas não tenhamos ilusões: apenas orçamentar, proclamar ou despejar dinheiro não resolve os verdeiros dramas com que cada jovem português vive a sua vida. Exige-se mais ao Governo, exige-se que ataque os bloqueios estruturais que dificultam o desenvolvimento do projeto de vida de cada.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico