Aviação: como salvaguardar quem trabalha num sector em redução?

Não há tempo para os contos da carochinha do mercado e dos criadores de riqueza – ou os Estados planificam esta transição ou não haverá nem o corte necessário de emissões, nem qualquer perspectiva de justiça social.

Há um paradoxo que nos é imposto em doses cavalares no sistema capitalista: a ideia de que para mantermos empregos temos de destruir o futuro e que, para haver um futuro, temos de destruir empregos. Fruto da captura de muito do nosso imaginário comum para estas ideias, acabamos como sociedade por resignar-nos ao cinismo ou à hipocrisia, à ideia de que já não há nada a fazer e/ou de que a miséria social será catastrófica. Quando um sector como a aviação, ou outros, que têm de ser reduzidos drasticamente, se vê perante esta aparente inevitabilidade, resta perguntar: ainda há política ou só uma espécie de gestão tecnológica da miséria?

Recentemente, o pedido de insolvência da Groundforce veio atirar de novo para a praça pública a maneira como quem trabalha é jogado de um lado para o outro num pingue-pongue incoerente entre o capitalismo privado de Alfredo Casimiro e o proto-capitalismo de Estado de Pedro Nuno Santos. O ministro anunciou que todos os direitos de quem trabalha na TAP seriam respeitados, embora obviamente não tenha um plano que não seja aumentar os voos – e até construir um novo aeroporto – enquanto despede pessoas. Crise climática? Como se não houvesse. Crise social? Idem.

Para efeitos de propaganda, anuncia que a “nova” TAP será uma companhia ‘mais verde e confortável’, e, como concretização deste anúncio, cria uma nova taxa aos passageiros aéreos, que conduzirá “milhões de euros para o fundo ambiental”. Uma nova taxa não reduz os aviões que o ministro quer aumentar, quanto muito torna esses voos mais exclusivos. Uma nova taxa não retira dióxido de carbono da atmosfera, e nada cá em baixo permite retirar dióxido de carbono – o que os aviões (actuais e, se aumentassem, os futuros) lá puserem, lá ficará até a maior parte de nós já ter morrido há muito.

Quem trabalha neste sector tem toda a razão para estar apreensivo. Se o que este ministro, supostamente dos mais à esquerda na mítica ala esquerda do PS, tem para propor é isto, imagine-se o que é o futuro do emprego considerando o quadro político em Portugal. O quadro institucional actual tem tanta imaginação como coragem política: nenhuma. Só consegue imaginar o que viu nas últimas décadas, rejeitando a realidade que está a acontecer: já vivemos noutra era, com um novo clima que, sem acção contundente esta década, será devastador para a Humanidade. Mas, entretanto, as pessoas continuam a necessitar de rendimento num mundo organizado à volta de capital.

Pouco há de técnico no que tem de acontecer. Mudar o sistema de transportes tirando aviões do ar e substitui-los quando necessário por outros meios sem emissões. Isto é absolutamente uma questão política. Há quem lhe chame Green New Deal, há quem lhe chame Climate Jobs ou Empregos para o Clima. Para haver justiça neste processo de transição, deve haver prioridade nos novos postos de trabalho criados – sim, têm de ser criados muito mais postos de trabalho do que aqueles que têm de desaparecer – para as pessoas da aviação. Da aviação directamente, e também para os trabalhadores sem os quais a aviação não mexe – além da TAP, Groundforce e afins. Não há tempo para os contos da carochinha do mercado e dos criadores de riqueza – ou os Estados planificam esta transição ou não haverá nem o corte necessário de emissões, nem qualquer perspectiva de justiça social.

No próximo dia 22 de Maio, às 16h, no Aeroporto de Lisboa, uma manifestação/acção pela justiça climática pedirá, entre outras coisas, que sejam criadas garantias de emprego digno em novos sectores de mobilidade sustentável para quem trabalha actualmente na aviação, um sector que não pode manter-se como está. O único paradoxo aqui é como deixámos durante tanto tempo que nos fosse imposta a estúpida ideia de que para poder haver rendimento temos de continuar a destruir o sítio onde vivemos, e destruí-lo até ele se tornar inabitável. Não há empregos num planeta morto. A salvaguarda de quem trabalha na aviação e nos outros sectores em redução é uma questão unicamente política.