Um foguetão em cheio no toutiço

O que interessa é que o cérebro humano é uma máquina perfeita na construção de mentiras, que normalmente só afectam o indivíduo que o possui.

As notícias que melhor nos acertam são as que não esperamos. Há um par de noites, soube da existência do destroço de um foguetão que estava a caminho da Terra. Mas, desta vez, não se tratava de uma daquelas aterragens cautelosamente programadas, de minúcia milimétrica. Não. Este vinha desgovernado, sabia-se apenas que haveria de cair algures no nosso planeta. Onde? Difícil dizer: podia ser no mar, podia ser em terra, podia ser numa ilha ou numa placa continental, podia ser no Atlântico, no Pacífico, podia ser no coração europeu ou no coração africano. No fundo, podia ser em qualquer lado. Ah, só se sabia que não cairia no Índico (spoiler  alert: caiu no Índico). Mas eu ainda não conhecia o desfecho da queda, e perante tamanha área coberta pela lei das probabilidades, o meu cérebro encarregou-se do resto.

Long March 5B, era este o nome do viajante sem mapa. Num par de horas, para defender a minha reputação de adepto de astrofísica, da qual quase ninguém sabe, porque eu não conheço o suficiente para fazer brilharetes em jantares de amigos ou em reuniões com clientes, dei por mim a perceber tudinho sobre o foguetão. Com vinte e três toneladas, foi deixado à deriva em baixa órbita pela China após ter colocado no espaço o primeiro módulo da estação espacial chinesa, tornando-se num dos maiores objectos a entrar descontroladamente na Terra desde o desastre do Columbia em 2003. Cairia na madrugada de sábado para domingo, algures entre as 2h30 e as 6h30.

Mas isto pouco interessa. O que interessa é que o cérebro humano é uma máquina perfeita na construção de mentiras, que normalmente só afectam o indivíduo que o possui. Por isso, ergueu-se em mim uma certeza: se o foguetão ia despenhar-se na Terra, e se havia uma levíssima possibilidade de cair em território português, era mais do que certo que o meu apartamento seria o visado. A NASA dizia que, caso acontecesse, a cidade de Braga, ou algures um pouco mais a sul, seria o alvo. Mas o que percebe a NASA de queda de objectos vindos do espaço, para além de décadas de experiência a estudar tudo o que está para lá da atmosfera terrestre? Era óbvio para mim que eu tinha razão, e a NASA haveria de pedir desculpas pelo seu clamoroso falhanço. Não aconteceu.

Era cada vez mais claro para mim que o Long March 5B tinha o destino traçado, e com a sua queda viria também a minha sina. A sensação era semelhante àquela que se tem quando se está num vasto campo de futebol onde jogam alguns miúdos e nos passa pela cabeça que, não tarda nada, aquela bola nos acertará em cheio no toutiço. Claro que, acima da minha casa, ainda há outros três andares, mas a maquinaria não cairia a pique, o que permitiria que acertasse em cheio no lado do prédio onde eu estaria a cumprir, sem grande sucesso, o meu sono de beleza.

Deitei-me com a convicção presa ao espírito. No dia seguinte, haveria notícias de como um foguetão desorientado rebentara com um prédio nos arrabaldes lisboetas, levando consigo um punhado de vidas.

A noite não teve qualquer evento de maior, a não ser um rumor vindo do lado de fora da janela por volta das cinco da madrugada, pelo meu cálculo atabalhoado de quem ainda está ensonado e não sabe fazer bem as contas às horas, e mesmo assim ocorreu-me o pensamento: «é agora». Perante a gravidade da situação, voltei-me para o outro lado e adormeci. (Não era uma nuvem de metal e fogo a trezentos à hora. Era chuva.)

O sol entrava já afoito por entre as frestas do estore quando, ainda estremunhado, lembrei vagamente a queda do foguetão. Subitamente, a pergunta: será que a nave tivera um atraso, qual eléctrico da Carris? Uma rápida busca online trouxe a notícia: o Long March 5B caíra no Oceano Índico, encostadinho às Maldivas, a 9.138 quilómetros de distância do meu apartamento, e não onde o meu faro apuradíssimo havia previsto. Já não se pode confiar em nada, muito menos em nós próprios.