Imunidade de grupo pode ser impossível de atingir, dizem epidemiologistas

O vírus SARS-CoV-2 pode tornar-se endémico, mas menos perigoso e mais controlável no futuro, semelhante a “uma constipação comum”.

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A pandemia descontrolou-se na Índia depois do aparecimento de uma nova variante IDREES MOHAMMED / EPA

O aparecimento de variantes do vírus SARS-CoV-2 mais contagiosas e perigosas e o lento ritmo da vacinação em todo o mundo podem pôr em causa o objectivo de se atingir a imunidade colectiva, avisam alguns especialistas. Dadas as condições actuais, o mais provável é que o mundo tenha de aprender a viver com a covid-19, embora numa versão mais controlada e menos destrutiva.

Os principais focos de contágio actualmente estão localizados na Índia e na América Latina, onde a vacinação decorre muito lentamente e a grande exposição ao novo coronavírus permitiu o desenvolvimento de novas estirpes. A capacidade de adaptação do SARS-CoV-2 parece indiciar que a doença irá persistir um pouco por todo o mundo no futuro.

O epidemiologista da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, David Heymann, entrevistado pelo The New York Times, prevê um futuro em que pequenos surtos de covid-19 apareçam em alguns locais ao mesmo tempo, mas com uma muito menor mortalidade do que aquela verificada nos países mais atingidos.

“Esta é a progressão natural de muitas infecções que encontramos em humanos, seja a tuberculose ou o VIH”, diz Heymann, que também passou pela Organização Mundial de Saúde. “Elas tornaram-se endémicas e aprendemos a viver com elas e também a fazer avaliações de risco sobre como proteger aqueles que queremos proteger”, explica o especialista.

Apesar da aparente impossibilidade de se atingir a imunidade de grupo, a vacinação deve manter-se e ser acelerada sobretudo nos países mais pobres que lutam pelo acesso a doses. O número de contágios continua a bater recordes, mas a mortalidade tem caído desde Fevereiro – um efeito atribuído à distribuição de vacinas.

A queda do número de óbitos em função da vacinação permite antever um cenário em que a covid-19 se pode tornar endémica, “mas não de uma forma que ameace a vida”, diz o professor de saúde pública da Universidade de Duke, Michael Merson. “Poderá passar a ser mais como aquilo que vemos a acontecer com as crianças mais novas, um tipo de doença semelhante a uma constipação comum”, observa.