Recuperação da educação

Protestar sem percebermos que cada um de nós faz parte do sistema não só é um mau princípio mas também é uma visão muito redutora do próprio sistema!

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Daniel Rocha

Recuperar a Educação é garantir aprendizagens Ainda antes do segundo confinamento escrevi que tinha chegado a hora de olharmos seriamente para a Educação como um investimento. Percebemos com a pandemia que o que vai mal na Educação não são as aprendizagens que, inegavelmente, ficaram para trás, mas sim o futuro do sistema educativo que parece ter ficado esquecido há décadas.

Investir na Educação é provavelmente o melhor investimento que uma nação pode fazer. Que não haja dúvidas disso e, se houver, que se olhe para os países que nos são apresentados como exemplos. Apesar de parecer estar na moda o termo “recuperação das aprendizagens” e de repente termos visto aparecer vários especialistas com soluções mágicas para as recuperar, parece-me que a grande solução será mesmo recuperar, reformando, a Educação, de maneira a garantir as aprendizagens.

De facto, o termo Recuperar a Educação, poderá ser entendido como mais um cliché com décadas e bastante vago e por isso mesmo queria, não sendo muito exaustivo, apontar algumas pistas que podem servir de ponto de partida:

Em primeiro lugar, não me parece lógico repensar a Educação sem envolver o seu maior activo, os professores. Cansados estamos de ver as mudanças serem desenhadas por “especialistas” que muitas vezes desconhecem a realidade diária das escolas e sobretudo ignoram o conhecimento empírico, substituindo-o por estatísticas muito pouco humanizadas. Os professores têm de deixar de ser vistos pelos designers como meros executores de toda e qualquer política educativa, ficando muitas vezes, injustamente, com o ónus de que o desenho foi mal elaborado. Envolver os professores é fundamental.

Mas para que este envolvimento ocorra harmoniosamente, permita-me a autocrítica, é preciso que os professores não se diminuam e se considerem executantes de fim de linha que nada podem fazer para alterar o panorama educativo, a não ser resmungar enquanto deambulam pelos corredores da escola. Somos todos capazes de muito mais. Temos de mudar também a nossa mentalidade, pois muito daquilo de que nos queixamos no sistema, deve-se a nós próprios. Protestar sem percebermos que cada um de nós faz parte do sistema não só é um mau princípio mas também é uma visão muito redutora do próprio sistema!

Em segundo lugar, perceber que não é com remendos de ocasião, escolas de Verão ou lá o que lhes quiserem chamar, que se removem erros de décadas que estão cravados no sistema. Parece-me claro que poderá aqui haver um aproveitamento para “vender” algumas ideias que, de outro modo, não teriam comprador.

O que é de facto necessário é que se desenhe um Plano Estratégico Nacional do Sistema Educativo (PENSE) sério e consensual para preparar o futuro da Educação. Só com uma Educação de qualidade é que se consegue promover o acesso a melhores condições de vida, a escola enquanto elevador social. A escola não tem só de servir refeições e incluir a todo o custo, sem custo nenhum. A escola tem de oferecer qualidade, rigor, exigência e sobretudo dar a possibilidade a qualquer aluno que a frequente de se sentir no direito de alcançar o sucesso independentemente da sua origem social e geográfica. É preciso coragem. É preciso que os pedagogos e os políticos sejam corajosos e conscientes o suficiente para retirar da letargia em que se encontra todo o sistema.

As aprendizagens estarão sempre garantidas se o estado, através do PENSE, apetrechar a Escola com meios económicos, humanos, tecnológicos, didáticos e condições de trabalho. Acabando com as turmas numerosas e de multinível, respeitando a diversidade dos alunos, dos níveis de ensino, das escolas, dos meios socioeconómicos onde se inserem as escolas.

Escolhendo este caminho, estaríamos a optar pelo que comprovadamente funciona, conforme nos indicam os diversos estudos relativos ao tema. Uma escola eficiente do ponto de vista da rentabilização do tempo de ensino em oposição ao mais tempo de ensino. Uma escola aprendente, aberta à envolvência e em permanente aprendizagem e adaptação aos alunos que ensina.

Não é preciso recuar muitos anos para percebermos quando é que acelerou a degradação das políticas de Educação, foi há, sensivelmente, década e meia, no Governo de Sócrates. Daí para cá, por esta ou aquela razão, ainda não se fez nada para a recuperar.

Com a Educação neste estado de decadência permanente o futuro do país pode estar comprometido e aí não haverá Verão que chegue para tantas escolas.