O encontro

Estas noites longas e silenciosas conhecem angústias que não sonhamos.

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"Havia um silêncio que lhes trazia dignidade" Mag Rodrigues

Chamava-se Nelson, mas eu com o tempo esqueci-me do nome dele.

Foi há 20 anos. Eu regressava do trabalho ainda a manhã estava a meio e o autocarro parava no sítio onde ele dormia porque ele dormia ali mesmo, na paragem do autocarro. Tinha as tralhas, poucas, necessárias para resistir e já não me lembro por que razão começámos a nossa conversa mas aconteceu: um dia começámos a conversar. Eu vinha frágil e estremunhada da minha manhã que começava às 4h15 (punha sempre o despertador para as 4h14 por preferir números pares) e avançava para o dia que ainda era noite com um arrepio de desconforto que nunca passava, mas os dias, com ou sem conforto, têm de ser cumpridos.

O autocarro parava ali no sítio dele e eu sabia que me faltaria meio caminho para chegar a casa. Lembro-me de descobrir nessa altura que a tristeza era chover sem parar e nunca mais chegarmos a casa. Há quem viva a vida inteira com essa dor acomodada: a da chuva insistente sem chegarmos a porto seguro.

Nelson ficava ali naquela fronteira aonde eu sabia que meio caminho meu estava por cumprir e a conversa estava por nascer. Até que nasceu. Não sei de onde partiram as primeiras sílabas mas ele tinha um vocabulário fino que rompia da sua pele queimada pelo sol e o cabelo mais revolto que a maré agitada.

Era em frente ao rio que ele ficava. A água por companhia. Talvez um pacote de vinho fraco na mesinha de cabeceira que não existia.

Falava muito Nelson. Sabia das artimanhas de alguns políticos, conhecia o sítio onde eu trabalhava. Talvez me chamasse a menina da rádio. É possível. Não me lembro bem.

Muitas vezes eu descia do autocarro e ele dormia e eu deixava-lhe um lanche embrulhado junto ao sonhos dele. Depois lá ia eu chegar a casa com as dores dos 30 anos. Eram maiores do que agora.

Uma manhã cheguei à paragem do autocarro e ele não estava lá. Estranhei. Fui perguntar à polícia ali da zona. Ninguém o tinha visto. Ninguém sabia, mas umas paragens mais à frente um homem avisou-me que os sem-abrigo tinham sido deslocados dali para outro sítio. Nunca eu soube qual.

Nas manhãs que se seguiram ainda pensei que podia encontrá-lo mas nunca mais o vi. Perdi o Nelson. E aquele meio caminho nunca mais foi o mesmo.

Passaram-se anos, muitos, eu mudei de vida, de caminhos, de paragens. A memória apagou-me o nome dele talvez porque tivesse de dar lugar a outros passageiros: aqueles que vão e vêm na nossa vida.

Há uns anos um amigo desafiou-me para fazer uma viagem pela noite de Lisboa e pela distribuição de alimentos a quem deles precisa. E muita gente que vi precisava de comer mas também de alimento para a alma. Uma rede para o pensamento não desabar. Na fila do pão e do leite, um pai parecia ter saído do trabalho num fato que não levantava suspeitas e na fila pediu mais leite para a filha pequena. Estas noites longas e silenciosas conhecem angústias que não sonhamos. Nunca nos aproximaríamos delas se não estivéssemos mesmo perto.

Nessa noite ouvi muita gente, gente com filhos mas lares perdidos, gente que queria ser livre e preferia dormir debaixo de um contentor com o rio por perto.

Longe dali, na gare, homens e mulheres pareciam pirilampos com o seu cobertor e uma luz que nunca se apagava. Havia um silêncio que lhes trazia dignidade. Lembro-me que era de respeito esse silêncio, sim.

Na última volta pela cidade, ou para mim ficará como a última volta, o amigo que me levara nessa vigília chamou-me para ir conhecer um sítio mágico: uma capela semiabandonada onde dois homens sem tecto partilhavam o espaço. Havia livros e velas e objectos não propriamente em desordem. E jornais, muitos. Eram dois eremitas em comunhão. Um deles aproximou-se do meu amigo e o meu amigo apresentou-nos: era um homem sem caracóis mas com os olhos azuis, um azul profundo que eu conhecia. Chamava-se Nelson. Não nos reconhecemos imediatamente, afinal tinham passado 15 anos. Ele ficou silencioso e eu percebi mais tarde que era ele.

A cidade e os seus habitantes com casa ou sem tecto. Há uma ideia de encontro que me fascina. Nessa madrugada onde gente procura quem sustente o seu pensamento e forre o seu estômago.

As dores do nosso conforto são muito pequenas perante os desabrigados da noite.