Teatro

Eunice Muñoz: "Chegou a altura de deixar cair o pano"

Aos 92 anos e prestes a celebrar oito décadas de uma carreira recheada de prémios e condecorações, Eunice entra em cena com Lídia. Para se despedir oficialmente dos palcos, a avó partilha o estrelato com a neta, de 30 anos. São duas gerações n’ A Margem do Tempo, peça de Franz-Xaver Kroetz feita de um intenso diálogo entre acção e música, no caso de Nuno Feist.

Mas antes de tudo o resto, até mesmo do amor incondicional que ambas nutrem pelo teatro, Eunice e Lídia Muñoz afirmam ser apenas “avó e neta”, apaixonadas uma pela outra. Para o público, este encontro é isso, mas também muito mais.

Eunice tem uma carreira marcante na história do teatro nacional e os seus personagens acompanham gerações de portugueses. Uma vida intensa, que nos palcos começou aos 13 anos. Uma estreia profissional, e logo no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa — que será também o palco deste adeus —, sob a bênção de outro ícone nacional, Amélia Rey Colaço. Sem formação na área, mas inspirada pela avó (que Eunice recorda como uma “actriz maravilhosa”), a estreante já contava com um currículo construído em muitos quilómetros de estrada. Afinal, quase desde que nasceu que andava a fazer teatro e sempre em família.

Ao longo da sua carreira fez um pouco de tudo, sublinhando a exigência do “muito trabalho” que lhe permitiu desdobrar-se e não cair no facilitismo de viver de uma personagem, Eunice. Contudo, não deixa de lamentar o tanto que foi “roubado” pela censura antes do 25 de Abril, que chegou a ter entre os autores proibidos, por exemplo, o insuspeito, e pelos vistos perigoso, William Shakespeare. Quando por fim a Revolução dos Cravos chegou, Eunice “já não tinha idade” para tantos papéis que sonhara assumir. Isso não significa que não tivesse reservadas grandes personagens, como as duas que afirma estar entre as que mais amou: Mãe Coragem e os Seus Filhos, que se estreou em 1986, e o imponente monólogo de Zerlina, de 1993.

Casada por três vezes — com Rui Ângelo de Oliveira do Couto, Ernesto Borges e António Barahona da Fonseca —, a actriz teve seis filhos e, garante, “muitos momentos de felicidade”, que lhe permitem, hoje, sentir-se “grata a Deus”. Pelo que teve e pelo que tem: como, agora, que se prepara para viver um sonho: ver o pano cair pela última vez na sala onde viveu a emoção de observar, em 1941, as cortinas a abrirem-se pela primeira vez. A última apresentação está prevista para Novembro, altura em que terá cumprido os 93 anos (a 30 de Setembro). Até lá, não vai parar, literalmente: ainda este mês, e depois de Ponta Delgada este fim-de-semana, segue para Gafanha da Nazaré, Coimbra e Pombal. E já sabe que vai sentir-se como em criança, feliz por poder encontrar um público que descreve como “muito atento” e “que se entrega ao que está a ver de uma forma muito honesta”.

Também, tal como fazia com os avós, os pais e os tios, será uma viagem em família, com a neta Lídia Muñoz, com quem partilha casa e vida há mais de dez anos. Elas serão, como às vezes se vêem na vida, uma mesma mulher. Trata-se de um espectáculo “muito especial”, feito de silêncio, escolhido tendo em conta as restrições que Eunice vive desde 2013, quando perdeu a voz na sequência da remoção cirúrgica de um tumor. E, mesmo tendo recuperado a capacidade de falar, com terapia e outras intervenções, ainda hoje confessa que a “cansa um pouco falar”. “Seca muito a garganta”, justifica.

No entanto, mesmo sem palavras, avó e neta estarão certamente num permanente diálogo. É que, garante Eunice, une-as “um amor especial”. “Somos almas gémeas, e isso dá-nos muito prazer, muita alegria.” É um adeus português, aqui retratado numa conversa com a avó e com a neta.

Eunice Muñoz: "Chegou a altura de deixar cair o pano"

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