Sul

O Alentejo, como outros territórios, vive imerso no meio dessas antinomias, onde lógicas locais e globais se misturam. A ideia de pureza convive com a exploração hiper-intensiva, os danos no solo e a mão-de-obra escravizada.

Em primeiro lugar gosto da palavra. Do som. Sul. Mas também me revejo nas ressonâncias simbólicas mais simples, no sol, na sombra, nas oliveiras, no azeite, nas cores secas, no cheiro das giestas, na sensação de haver um tempo mais lento a passar, na forma como o diálogo com o solo tem sido fomentador, através do pão, da possibilidade de felicidade. O norte tem muitas vezes a tentação de afirmar que politicamente e economicamente o sul pouco importa. Vemos isso na Europa. O sul tem a aprender com o norte. Técnica, cientificamente e em organização. Mas quando imagino modelos de futuro, no sentido da vida, da mistura, do ritmo, das relações interpessoais, da sensualidade, da realização cultural, é o sul que vislumbro.

Há dias, ao ler uma crónica deliciosa (O Sul de uma Amália que Pintava Flores) do programador cultural Paulo Pires, focada no apelo inebriante que Amália Rodrigues sentia pelo sul, pensei nisso. Dizia ela que “o Alentejo é um sítio onde uma pessoa vê mais do que aquilo que pode ver”. Faz-me sentido essa convocação romântica, apesar de o Alentejo ser muitas coisas. Recordo-me de os meus avós relatarem como noutros tempos os montes alentejanos eram locais de sociabilidades vibrantes, de encontro, de coabitação, e como se trabalhava arduamente de dia, para à noite se percorrem grandes distâncias para se ir ao bailarico. E depois há as histórias colectivas. Os latifúndios. A reforma agrária. Lutas por maior igualdade. A desertificação. A cultura do montado. A monocultura de cereal. A agricultura industrial. E até ainda alguns vestígios de uma certa cultura mediterrânica da honra e da vergonha, mais comum no Alentejo interior e no Algarve da serra, do que no litoral alentejano ou algarvio.

Sempre existiram focos de conflitualidade, como marcas de resistência e resiliência. O bucolismo idílico nunca existiu, apesar dos prados repletos de contrastes suaves, ou do cheiro da esteva, ou da pequena elevação de onde se pode ficar a olhar o horizonte, num território tantas vezes ameaçado e violentado. Não era preciso essa confirmação, mas por estes dias mais uma vez se sentiu isso com um assunto de que agora todos fingem não ter conhecimento, e onde não existem inocentes, apenas tornado mais visível pela pandemia: a forma como tantos trabalhadores imigrantes vivem e trabalham, explorados por empresas agrícolas, por intermediários e máfias, reflexos de um sistema económico com o qual somos coniventes, que produz riqueza a partir da exploração intensiva e extensiva do trabalho, apoiando-se cada vez mais numa rede de oligarquias para assegurar a competitividade das economias e as quimeras de crescimento infinito que ainda alimentam as sociedades onde vivemos.

O Alentejo, como outros territórios, vive imerso no meio dessas antinomias, onde lógicas locais e globais se misturam. A ideia de pureza, o ar respirável, a biodiversidade de animais e plantas convive com os agro-químicos, a exploração hiper-intensiva, os danos no solo, a mão-de-obra escravizada, os ciclos artificiais, a resistência à pobreza, o agricultor tradicional que não consegue acompanhar as exigências da produção intensiva, os ciclos de seca e o despovoamento. E no meio disso tudo existe a memória afectiva, e subjectiva, de cada um daquela mesma paisagem.

Julgo entender o norte. Algumas das pessoas que mais prezo são de lá. Mas a minha árvore é o sul. Sinto-me do sul embora não saiba como o justificar. Quando penso em ir é para sul, embora paradoxalmente ao sul sinta que não vou, estou. É como quando se abre uma janela, o ar até pode não ser o mais apetecível, mas aquilo está lá. Uma coisa agradável sem razão de ser. Uma coisa que é. Talvez seja o ambiente, o panorama, as pessoas, o tempo e o espaço, mas isso é empolar seja o que for. São lugares-comuns. Simplificações que procuram atribuir sentido àquilo que tantas vezes não o tem. Às vezes é preciso apenas aceitar. Sou sul.