A tourada e a RTP como serviço público de todos ou só de alguns

Excluir a possibilidade de transmissão de touradas no serviço público significa dizer que todos pagaremos o serviço com os nossos impostos, mas a programação despreza parte dos contribuintes.

Tenho a maior consideração pela importância do serviço público de rádio e televisão e pelos seus profissionais como esperança de afirmação de uma informação fiável, equilibrada e plural.

A realidade é diversa, plural e complexa, mas alguns insistem em impor visões simplistas, parcelares, quais ditaduras de gosto, que invariavelmente estão orientadas para atacar parte da sociedade portuguesa numa lógica de exclusão de uns em função dos interesses de outros.

O Estado deve assegurar serviços públicos universais nas áreas vitais para os cidadãos e para o país. O país é plural, diferenciado e não pode estar sujeito a lógicas de circunstância ou de segregação como acontece com a proposta de contrato de Concessão do Serviço Público de Rádio e de Televisão em consulta pública.

Excluir a possibilidade de transmissão de touradas no serviço público significa dizer que todos pagaremos o serviço com os nossos impostos, mas a programação despreza parte dos contribuintes.

As touradas são parte da diversidade do país, das tradições de muitas comunidades e um pilar importante do Mundo Rural e das economias locais. Por muito que alguns não gostem, são parte da identidade de muitas comunidades, devem ser respeitadas como expressão de diversidade, além dos humores dos decisores políticos, das circunstâncias ou das modas.

Não é possível construir uma sociedade democrática, plural e inclusiva com manifestações arbitrárias de segregação de parte da população, impondo uma ditadura de gosto, uma visão parcelar, maniqueísta, sem cuidar que há um Mundo Rural que existe, precisa de viver e em relação ao qual nem sempre há a atenção e o investimento adequado.

Não é possível construir um serviço público de rádio e televisão, supostamente abrangente, que, à partida, excluí parte dos gostos da sociedade portuguesa, encarreira numa lógica de ataque às dinâmicas de algumas comunidades rurais, às suas marcas de identidade cultural e a atividades com relevância para as economias locais.

A partir de gostos particulares, de modas de circunstância ou de preconceitos não se pode consagrar como visão do Estado uma intolerância segregadora. Um serviço público parcial, intolerante com algumas expressões da sociedade, não é democrático. É incompatível com a visão de Abril e com a Constituição, não pode ser aceite pelos democratas porque encarreira nas práticas de outros regimes.

As touradas existem, são parte da diversidade da sociedade portuguesa. Não é possível persistirem num ataque permanente e intolerante a expressões do Mundo Rural, sem que, em algum momento, tivessem estado preocupados com a necessidade de assegurar mínimos de qualidade de vida a quem vive nesses territórios, longe dos corredores do poder, das pseudoelites urbanas e de quem não tem noção da vida concreta do país fora dos grandes centros urbanos.

Não passarão!

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico