Não se morre em nome de Deus

Estamos em 2021, caramba. E, quando devíamos estar a caminhar no sentido de uma maior tolerância religiosa, percebemos que há países a fazer o trajecto exactamente oposto.

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É assustador perceber que duas em cada três pessoas vivem em países com graves restrições à liberdade religiosa que é violada diariamente em quase um terço dos países do mundo Werner Forman/Getty Images,Werner Forman/Getty Images

Gostava de começar esta crónica pelo relato da história do empresário egípcio Nabil Habashy Salama, sequestrado em Novembro de 2020 por jihadistas. O motivo do sequestro? Nabil ousou ser cristão e financiar a construção de uma igreja num Egipto onde, apesar da retórica oficial de igualdade e fraternidade entre os cidadãos, os cristãos continuam a ser discriminados pela lei e vítimas frequentes de crimes violentos. A história de Nabil, que permaneceu cativo durante três meses, chegou há poucas semanas ao seu final e o Daesh, como quase sempre, fez questão de a tornar pública através das redes sociais. E no vídeo publicado podemos assistir ao homem cristão, ajoelhado no deserto com as mãos no colo, a ser fuzilado sem piedade por três carrascos armados com metralhadoras.

Nabil foi mais um. E a verdade é que as vítimas da intolerância religiosa são tantas que já perderam o direito a ter um rosto. Salvo raras excepções, como o caso do professor de História francês Samuel Paty, que acabou decapitado após mostrar uma caricatura de Maomé numa aula sobre liberdade de expressão, a esmagadora maioria das vítimas deste crime transforma-se em nada mais do que um número.

Em Moçambique, no dia 11 de Novembro de 2020, 50 pessoas foram decapitadas com catanas na província de Cabo Delgado. Não sabemos o nome de nenhuma delas. São mais cinco dezenas de invisíveis que, sem nome, sem rosto e sem história, vêm apenas engrossar um número que, de tão chocante, já começa a nem chocar assim tanto. E neste país, onde a comunidade cristã representa cerca de 54% da população e a comunidade muçulmana cerca de 17,5%, morreram, devido a intolerância religiosa, mais de duas mil pessoas em 2020 e cerca de 430 mil ficaram desalojadas. E se estes números já são pesados, imaginem se conhecêssemos cada uma destas histórias.

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Nabil El-Habashy foi raptado em Sinai. Tinha 62 anos Twitter: @EgyptianStreets

Saiu há poucas semanas o Relatório de Liberdade Religiosa no Mundo, publicado bianualmente pela fundação Aid to the Church in Need (Ajuda à Igreja Que Sofre), e só esta semana consegui terminar a sua leitura. E é assustador perceber que duas em cada três pessoas vivem em países com graves restrições à liberdade religiosa que é violada diariamente em quase um terço dos países do mundo.

E se comecei por falar na perseguição feita por grupos muçulmanos radicais, convém não esquecer que há muitos países no mundo onde são os muçulmanos os perseguidos e, quase sempre, de forma bastante violenta.

Em Myanmar, por exemplo, a minoria muçulmana rohingya vê limitados os seus direitos de cidadania, movimento e permissão de residência. Isto, quando se consegue livrar de massacres. E chamem “ao problema dos rohingyas” os nomes politicamente correctos que quiserem, mas o que está em curso em Myanmar é um genocídio que as organizações internacionais não conseguem travar e para o qual muito poucos de nós se atrevem a olhar de frente.

E já que falo em muçulmanos perseguidos deixem-me falar sobre os uigures, que são um grupo étnico muçulmano que habita há muitos anos o Noroeste da China e que o Governo chinês, desde 2014, tem vindo a encerrar em campos de “reeducação”. Segundo as autoridades chinesas, estes campos são ferramentas para combater o extremismo, mas a verdade é que estes campos operam fora do sistema legal e que muitos do que lá são fechados não conhecem qualquer acusação ou passam por qualquer julgamento. Estima-se que tenham já sido encarceradas nestes campos entre 900.000 e 1,8 milhões de pessoas, sendo que os motivos para tal encarceramento podem ser o uso de barba demasiado longa ou a recusa em comer carne de porco e ingerir bebidas alcoólicas. E, sim, é natural que estes campos nos tragam recordações de campos mais antigos, uma vez que, segundo as organizações internacionais, o modus operandi dos mesmos passa pelo abuso dos direitos humanos, maus tratos, trabalho forçado, violações e tortura.

Estamos em 2021, caramba. E, quando devíamos estar a caminhar no sentido de uma maior tolerância religiosa, percebemos que há países a fazer o trajecto exactamente oposto. Um dos casos mais flagrantes? A Turquia que Erdogan procura cada vez mais estabelecer como potência sunita, pondo totalmente de lado o laicismo. E, se alguém ainda alimentasse dúvidas, a transformação de Hagia Sophia em mesquita deixou bem clara qual a direcção escolhida pelo líder do país.

É assustador, não é? É assustador ler um relatório destes e perceber que a paz mundial ainda é uma utopia que já nem nos discursos de misses começa a ser possível encaixar – porque basta olharmos à nossa volta, mesmo aqui dentro do nosso país, para percebermos que a intolerância está viva e de boa saúde. Infelizmente.

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A cúpula central da Hagia Sophia GETTY IMAGES

A minha amiga Zainab é portuguesa, de Arroios, filha de pais paquistaneses. É muçulmana e usa o lenço por sua opção. É mestre em Ciências Farmacêuticas, casada e com dois filhos. Nunca se sentiu outra coisa que não fosse portuguesa, porque foi aqui que nasceu e este país é o único que conhece como casa. Mas já foi olhada de lado, pois claro. E ainda que ela pouco ligue a comentários idiotas e que se recuse sempre a julgar o todo pela parte, eles existem. E não deviam. Sabem porquê?

Porque a Zainab é uma mulher e uma mãe igual a mim e a tantas outras, preocupada acima de tudo em ver os filhos felizes e em mostrar-lhes que o mais importante é o amor e o respeito. É certo que os filhos dela aprendem o alfabeto árabe e que, mais tarde, hão-de ler o Alcorão, mas os meus também têm as avós que lhes ensinam a ladainha do “anjo da guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia”. E se os dela não comem carne de porco e cumprem escrupulosamente a alimentação halal, enquanto os meus comem de tudo, também é verdade que à noite, depois de as crianças adormecerem, ambas lhes preparamos as lancheiras para o dia seguinte – porque na casa dela ou na minha as coisas não variam assim tanto. Os nossos filhos fazem birras, gostam de vídeos tontos no YouTube e nós fazemos o que fazem todas as mães cristãs, muçulmanas, judias, budistas e ateias: amamos os nossos filhos acima de todas as coisas e queremos que eles sejam bons e felizes.

E isto não acontece só na maternidade. Acontece em todos os aspectos da vida. E é por isso que é impossível entender o aumento da perseguição e da opressão religiosas nos últimos anos. É impossível aceitar que governos autoritários e grupos fundamentalistas procurem impor a sua crença e as suas verdades. É impossível não olharmos para o que nos rodeia e para quem nos rodeia e não tentar percebê-los como iguais – ainda que a sua fé seja outra, ainda que o seu Deus (ou deuses) não seja o nosso.

É tempo de travarmos o rio de vítimas sem nome e sem rosto. Não sei como. Claro que não sei como – mas de uma coisa tenho a certeza: ninguém devia morrer em nome de Deus.