Exterminem todas as bestas

As palavras correspondem a ideias. E vêm na sequência do discurso dos “extremismos de direita e de esquerda”. Afinal, quem é que é extremista?

Com este título, não estou a apelar à exterminação de ninguém. De facto, não estou de acordo que se exterminem pessoas, mesmo que sejam “bestas”. Estou a recorrer ao título de um livro de Sven Lindqvist para evocar o verbo exterminar e o seu significado, num momento em que uma interveniente política apelou à exterminação do Bloco de Esquerda (BE). As palavras correspondem a ideias. E vêm na sequência do discurso dos “extremismos de direita e de esquerda”. Afinal, quem é que é extremista?

Exterminem Todas as Bestas foi publicado pelo autor sueco Sven Lindqvist (1932-2019) e teve edição em português em 2005 (ed. Caminho). O autor, cujos livros são simultaneamente de viagem e de evocação histórica dos espaços coloniais, inspirou-se no Livro Coração das Trevas, de Joseph Conrad, passado no Estado Livre do Congo, então propriedade pessoal de Leopoldo II (o livro de Conrad foi publicado em fascículos em 1899 e em livro em 1912). A dada altura, um personagem, relator para a “Sociedade Internacional para a Abolição dos Costumes Bárbaros”, descreve os hábitos “selvagens” e o bem que os “brancos” lhes podem fazer abolindo-os, mas numa nota de rodapé da última página encontra a frase “Exterminem-me todas estas bestas”. Quanto aos “brancos” em questão, tratava-se dos negociantes em borracha e marfim. Os habitantes locais eram usados para o trabalho e exterminados em caso de confronto ou revolta. O verbo exterminar mantém o seu significado. No título da edição francesa está Exterminer e na inglesa Exterminate. É um verbo internacional e actual. É usado também como propaganda para os insecticidas. Aparecerá em breve uma série de televisão com o mesmo nome, mantendo todo o sentido.

Extremismos de direita e de esquerda?

Ora, o impulso exterminador da protagonista política portuguesa e dos seus defensores vem na sequência do ódio às pessoas que se localizam na área do BE e de um discurso corrente que fala dos “extremistas de direita e de esquerda”. Em Portugal referem-se habitualmente ao BE e ao Partido Comunista Português (PCP). E quando se referem à Europa e ousam referir-se indirectamente e com delicadeza aos governos da Polónia e da Hungria, não perdem a ocasião de falar também nos “extremismos de esquerda”, deste modo contrabalançando a existência daqueles governos com os perigos à esquerda. Muito menos falam dos partidos pró-nazis da Alemanha e da Holanda e do cordão sanitário que o partido de Merkel impôs no seu país. Mas se falarem, lá vem a frase cassette. E ao falarem dos partidos de extrema-direita com assento parlamentar, em França, Espanha e Portugal, sempre sublinham que quem teve culpa da sua existência foi a esquerda, no que, diga-se de passagem, também são acompanhados por muitos que se abrigam neste campo. Só o que faltava é que os que são da esquerda em geral e da esquerda da esquerda em particular, além de vencidos, também tivessem culpa da existência de vencedores!

Depois de 1979/80, depois de Reagan e Thatcher, a esquerda veio de derrota em derrota, muitas vezes infelizmente de compromisso em compromisso e, na sequência do neo-liberalismo, vieram os nacionalismos populistas, os autoritarismos de traços fascistas. Estes governos e estes partidos são a consequência lógica do neo-liberalismo, da globalização desigual, da pobreza e da desigualdade, da literacia iletrada, acrítica, da tecnicidade sem pensamento. Há com certeza outros factores respeitantes à evolução da forma de produção industrial e agrária, à geografia social, mas todos eles têm origem nesta corrida sem freio, cujo motor é o lucro e não a humanidade. A esquerda foi sendo vencida e apenas se agarrou a tábuas de salvação.

Propostas extremistas?

Vejamos então o que é que são os “extremismos de esquerda”. Analisando as propostas do BE e do PCP no Parlamento, ouvindo o que dizem e o que escrevem, aquilo que defendem não vai além dum moderado programa social-democrata: valorização do trabalho com aumento dos salários, que é uma forma indispensável do combate à pobreza, defesa do carácter público e universal do Serviço Nacional de Saúde, defesa da Educação pública, defesa da Segurança Social como estrutura pública, combate à corrupção, travagem às nacionalizações, uma vez já perdidas as das empresas rentáveis. Qualquer programa dos países escandinavos ultrapassa isto. Extremistas? “Ah! Mas se não são eles, foram os pais deles ou os avós ou bisavós.

O BE foi formado pela convergência de três correntes políticas: a Política XXI, a União Democrática Popular (UDP) e o Partido Socialista Revolucionário (PSR). Proveniências comunista, maoísta e trotsquista. Em nenhum momento após o 25 de Abril apelaram à violência ou trataram com ódio os seus opositores. E, no entanto, foram objecto de violência e mesmo de assassinatos. Não caíram na asneira de pregar “olho por olho”. Uma parte das organizações de origem fez militância anti-estalinista. Uma vez com assento no Parlamento, o BE e o PCP aceitaram e respeitaram a Constituição, cumpriram as regras e, se engoliram sapos, fizeram-no com modos urbanos. E nunca, mas nunca, mostraram vontade de exterminar ninguém.

Médica, professora da Faculdade de Medicina de Lisboa, membro do grupo Estamos do Lado da Solução