A alegria e o encanto do quotidiano

Levar a filha à escola num dia banal pode transformar-se num momento inesquecível. “Porque todos os dias deveriam ser especiais”, diz Pedro Seromenho.

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Pedro Seromenho e Mia Flor Rocha
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Pedro Seromenho e Mia Flor Rocha
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Capa de “Mão Cheia”, edição da Porto Editora

“Nesta história, não há reino fantástico nem floresta mágica!”, diz o autor, Pedro Seromenho, ao PÚBLICO. “Não. Aqui, tudo se passa em casa, onde o encanto, a surpresa e a felicidade deveriam morar em cada (re)canto do quarto ou da sala”, acrescenta.

Escrito durante o período de confinamento, em que vimos a liberdade ser-nos temporariamente retirada e “passámos a viver a nossa família de um modo imprevisto e intenso, que nos obrigou a inúmeras mudanças e a sucessivas adaptações”, lembra o também organizador do Braga em Risco – Encontro de Ilustração.

O arranque do livro: “A Mia acordou a bocejar, deslizou nas pantufas como se fossem patins e sentou-se à mesa. Encheu uma tigela com cereais e outras coisas mais, até que apareceu o pai: —​ Filha, o que tens na mão?! —​ É um pedaço de algodão! Serve para limpar uma ferida no joelho, quando me magoo no recreio. Outras vezes atiro-o ao ar e torna-se uma nuvem da minha imaginação!

A pergunta há-de repetir-se ao longo de toda a história: “As rimas incómodas e a pergunta persistente são propositadamente repetidas: — Mia, o que tens na mão?!
Poderá ser imediatamente notado e até sobejamente criticado, mas ninguém ficará indiferente. Sabia o risco que corria e fá-lo-ia de novo. De forma exagerada.
Porque, com imaginação, tudo pode caber numa mão: um sorriso, um carinho ou um segredo. Numa casa onde mora o amor, não há esconderijo para o medo.”

Diz que o livro “é um acto de amor e cumplicidade entre um pai e uma filha”. E descreve-o como “uma espécie de jogo de relaxamento, uma brincadeira criativa com o que de mais vulgar a vida tem: o nosso quotidiano”.

De modo bem-disposto e poético, vai contando as conversas de um dia banal: “Não há momentos sublimes, nem tragédias gregas com actos heróicos. Trata-se apenas de mais um dia normal em que saímos de casa, para levar a nossa filha até à escola. Podia ser aborrecido, mas não é.”

O escritor e ilustrador defende: “Todos os dias deveriam ser especiais e todos os pais deveriam ter mais tempo para brincar com os seus filhos. Desta forma, as tarefas mais básicas do dia-a-dia tornar-se-iam momentos inesquecíveis!

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Pedro Seromenho e Mia Flor Rocha

Conta ainda. “Como a narrativa se tratava de um diálogo entre nós, resolvi desafiar a minha filha a conversar comigo através da inocência pueril dos seus desenhos. Foi também a melhor forma de desconstruir os meus.” E lembrou-se de Picasso, “para quem a arte de uma criança é suprema e prevalece a tudo o resto”.

Para as ilustrações, usou grafite, lápis de cor, aguarelas e marcadores de pigmentos. Explica também como as guardas do livro (folhas que resguardam o princípio e o fim de uma obra encadernada) fazem parte da história: “Na inicial, estou com a Mia a decidir o que desenhar e o lápis rosa indica ao leitor que será a sua cor. Tudo o que estiver a rosa será da sua autoria. Nas guardas finais, como a Mia é mais jovem e mais enérgica, continua a desfrutar da cor e da liberdade, mesmo depois de o seu pai já ter desmaiado no meio do caos e da balbúrdia!”

As imagens exprimem movimento, alegria e serenidade, mergulhando o leitor na atmosfera fantástica que o autor diz não existir... no livro.

Pedro Seromenho, editor da Paleta de Letras, é presença habitual nas escolas enquanto promotor de leitura. Pretende agora trabalhar e explorar a ideia do livro “com os pequenos através de objectos escondidos nas mãos”. Certamente, irá resultar.

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