E depois do coronavírus: como lidar com as sequelas?

Há necessidade de se desenvolverem opções para melhorar a qualidade de vida da população que já recuperou desta infecção. O processo de recuperação vai mais além de um teste negativo sobre a presença do vírus no organismo.

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Nuno Ferreira Santos

O novo coronavírus, designado SARS-Cov-2 ou nCoV foi identificado, pela primeira vez, em Dezembro de 2019 em Wuhan, na China. Embora os pulmões sejam o primeiro órgão-alvo da infecção por SARS-CoV-2, as evidências acumuladas indicam que o vírus pode espalhar-se para muitos órgãos diferentes, incluindo coração, vasos sanguíneos, rins, intestino e cérebro.

Estima-se que cerca de 80% dos doentes com covid-19 apresentaram sintomas ligeiros a moderados (tosse, febre e dificuldade respiratória), 14% desenvolveram uma patologia grave, com necessidade de hospitalização e suporte de oxigénio, dos quais 5% necessitaram de cuidados intensivos. (1)

Actualmente, vivemos ainda num período onde existem muitos casos de covid-19 e, consequentemente, altos números de óbitos. Contudo, há necessidade de se desenvolverem opções para melhorar a qualidade de vida da população que já recuperou desta infecção. O processo de recuperação vai mais além de um teste negativo sobre a presença do vírus no organismo. Muitos doentes mostram preocupação, dada a natureza desconhecida do vírus, de que os seus sintomas persistam por tempo indeterminado. De facto, existem dados suficientes que demonstram que alguns pacientes continuam a manifestar sintomas relacionados com a covid-19 depois da fase aguda da infecção e é já evidente que não são apenas os doentes que estiveram internados e/ou em cuidados intensivos que ficam com sequelas da doença. (2) (3)

Um estudo recentemente publicado no JAMA abordou especificamente a síndrome pós-covid. Após uma média de dois meses do início dos sintomas, somente 12,6% dos indivíduos da amostra estavam completamente livres de sintomas relacionados ao novo coronavírus. (2) Aproximadamente, 32% ainda apresentavam um ou dois sintomas e 55%, três sintomas ou mais. Em relação à qualidade de vida, 44,1% dos participantes revelaram um deterioração face ao período antes da infecção.

A fadiga foi o sintoma persistente mais frequentemente observado, atingindo mais da metade da população estudada (53,1%), seguido a dispneia (43,4%), dor articular (27,3%) e dor torácica (21,7%). Tosse, anosmia (perda total do olfacto), síndrome sicca (boca ou os olhos secos), rinite, hiperemia ocular, disgeusia (alteração do paladar) e cefaleia (dor de cabeça) foram outros sintomas reportados como persistentes. Por esse motivo, uma abordagem multidisciplinar torna-se crucial para a avaliação e o acompanhamento dos pacientes com covid-19, também após a fase aguda da doença para identificar a presença de possíveis sequelas, que podem beneficiar de um programa de reabilitação.

Por esta razão, o Holmes Place desenvolveu um programa de reabilitação específico para estes indivíduos. Este segue diretrizes nacionais e internacionais, é realizado por uma equipa multidisciplinar, sob supervisão médica, e conta com três áreas centrais: os serviços de Fisioterapia, Nutrição e Personal Training. A reabilitação requer a elaboração de um plano de intervenção individual, delineado pela equipa multidisciplinar, respeitando as fases da doença e garantindo segurança.


(1) Wu Z, McGoogan JM. Characteristics of and important lessons from the coronavirus disease 2019 (COVID-19) outbreak in China: summary of a report of 72 314 cases from the Chinese Center for Disease Control 

(2) Carfi, A, Bernabei, R, Landi, F. Persistent Symptoms in Patients After Acute COVID-19. JAMA July 9, 2020. doi:10.1001/jama.2020.12603

(3) Swift, D. COVID-19 Symptoms Can Linger for Months. Medscape News. July 13, 2020.