Coração incapaz: e agora?

A insuficiência cardíaca é a principal causa de internamentos em Portugal, sendo responsável por um internamento a cada 28 minutos. Esta quinta-feira assinala-se o Dia Europeu da Insuficiência Cardíaca.

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Nick Fewings/Unsplash

Estima-se que, em Portugal, cerca de meio milhão de pessoas viva com insuficiência cardíaca e prevê-se que estes números venham a aumentar nos próximos anos, sobretudo nas gerações mais velhas. Além disso, a insuficiência cardíaca é a principal causa de internamentos em Portugal, sendo responsável por um internamento a cada 28 minutos. É, também, uma das principais causas de morte, registando-se um óbito por insuficiência cardíaca a cada 3,8 horas, o que é superior ao que acontece com os cancros da mama, próstata ou cólon.

A insuficiência cardíaca desenvolve-se quando o coração não consegue bombear o sangue para o resto do corpo como deveria. As principais razões para que o coração não funcione correctamente são, por exemplo, problemas do músculo cardíaco (miocardiopatias), problemas das válvulas cardíacas, cicatrizes causadas por enfartes ou pressão arterial elevada.

Por causa disso, os órgãos recebem menos sangue e os líquidos tendem a acumular-se nos pulmões, pernas e abdómen e, consequentemente, os doentes com insuficiência cardíaca sentem-se fracos, cansados ou com dificuldade para respirar. Também, o desempenho de actividades diárias simples como caminhar, subir escadas ou carregar sacos de compras pode tornar-se bastante difícil. Além disso, a insuficiência cardíaca pode manifestar-se através do aparecimento de inchaço (edema) das pernas, tornozelos, pés ou do abdómen, ganho de peso devido a retenção de líquidos, maior necessidade de urinar durante a noite, pieira ou tosse sobretudo nocturna, dor torácica, alteração dos batimentos cardíacos ou, ainda, dificuldade de concentração e diminuição do apetite.

Assim, o aparecimento destes sintomas deve levantar a suspeita clínica de insuficiência cardíaca e justificar a marcação de consulta médica especializada de forma a confirmar ou excluir este diagnóstico. A confirmação diagnóstica reveste-se de grande importância visto que existem vários tipos de tratamentos que podem trazer grandes benefícios aos doentes.

Nalguns casos existe terapêutica e intervenções específicas para o tratamento de certas causas de insuficiência cardíaca como a doença arterial coronária ou as doenças das válvulas cardíacas. Nos doentes em que a capacidade de bombear o sangue está muito reduzida, quatro tipos de medicamentos (os beta-bloqueantes, os inibidores dos receptores da neprilisina e da angiotensina, os antagonistas do receptor dos mineralocorticóides e os inibidores SGLT2) demonstraram capacidade de reduzir a mortalidade, reduzir a necessidade de internamentos, melhorar os sintomas e qualidade de vida dos doentes e, até, melhorar a capacidade cardíaca. Os diuréticos são muito úteis no controlo da retenção de líquidos e na melhoria dos sintomas. Por fim, alguns dispositivos cardíacos podem ser utilizados para reduzir o risco de morte por arritmia e melhorar a performance do coração.

Estas terapêuticas são geralmente equacionadas e iniciadas em consultas específicas de insuficiência cardíaca. Considerando que o benefício destes tratamentos é tão marcado quanto mais rápido forem iniciados, torna-se crucial identificar sintomas sugestivos, estabelecer o diagnóstico e iniciar os tratamentos adequados o mais rápido possível.

Além do papel central que as consultas de insuficiência cardíaca têm no diagnóstico e início da terapêutica, é, também, nestas consultas que os doentes aprendem a lidar com os seus sintomas e a gerir a sua medicação e adquirem hábitos de vida saudável adequados à sua doença.

Apenas através destas medidas é possível que múltiplos doentes que previamente não conseguiam desempenhar tarefas simples como tomar banho ou vestir-se, por se encontrarem demasiado cansados, melhorem ao ponto de começarem a dar longos passeios sem necessidade de parar; que doentes com vários internamentos por ano que tanto lhes limitam a qualidade de vida, passem anos sem novos internamentos; ou que doentes que se encontravam impedidos de participar nas suas actividades laborais por cansaço e incapacidade, possam voltar ao trabalho e a sentir-se membros activos da sociedade.