O mais novo de todos os artistas

O Julião sempre foi dos mais inquietos, dos mais curiosos, dos mais verdadeiros. Não se tratava de um programa ou de uma estratégia, era a sua posição no mundo: insaciável, movido por uma enorme curiosidade e dono da maior e da melhor juventude de todas.

Sempre fui fascinado pelos olhos do Julião. Atentos, curiosos, cheios de energia. Olhos de felino sempre vigilante a todas as criaturas e a todas as coisas que o rodeavam. A sua visão era de quem está sempre a descobrir coisas, a estabelecer relações, a encontrar motivos de conversa, de admiração, de perguntas. Um olhar que se foi sempre renovando e que fazia com que fosse, de todos, o artista mais novo.

A partir do seu modo de ver, conseguiu, mais do que desenvolver pinturas, desenhos, filmes, performances ou instalações (o que realmente fez), expressar e materializar um corpo artístico único. Um todo, como ele gostava de dizer. Se as telas brancas e o vestido preto (the sexy litle black dress) são as suas imagens icónicas, os diálogos que estabeleceu com outros artistas e a maneira como fez da sua prática artística um campo fundamental de experimentação e descoberta do mundo são as maiores lições que nos deixou.

Foi sempre notável a maneira como o Julião queria experimentar coisas novas, conhecer novos artistas, desenvolver novos projectos. Tinha sempre alguma ideia nova para nos contar e em que nos queria envolver. Estava sempre a puxar-nos pela manga e a dizer “Anda cá ver isto.” Não se tratava de um programa ou de uma estratégia, era a sua posição no mundo: insaciável, movido por uma enorme curiosidade e dono da maior e da melhor juventude de todas.

Essa juventude, que fez dele sempre o artista mais novo, tinha um poder mobilizador enorme. E foi à volta dessa juventude que tantos de nós crescemos: artistas, críticos, curadores, amigos. E foi sempre imenso aquilo que nos deu.

Nunca será de mais sublinhar a sua importância fundamental na formação da cena artística contemporânea portuguesa, nem o modo como o seu trabalho fez parte do famoso regresso à pintura europeia por volta dos anos de 1980. As suas presenças na Documenta, na Bienal de Veneza e as suas colaborações com artistas tão relevantes como Juan Muñoz, Jonh Baldessari, Lawrence Weiner ou Atom Egoyan, entre muitos outros, mostram como o Julião era um artista em permanente diálogo com outras geografias e com outros modos de pensar e fazer arte.

Nestas colaborações, que lhe deram um lugar destacado na cena da arte contemporânea internacional, não estava só ele, isolado e sozinho com as suas obras, mas estava toda uma comunidade artística. Será difícil quantificar o número de encontros que provocou, as oportunidades que criou para outros artistas de cuja obra gostava. E da mesma maneira como, literal e insistentemente, nos puxava pela manga quando queria que prestássemos atenção a uma obra, estava sempre a empurrar-nos para irmos com ele lá para fora.

Mas não foi só com aqueles “big names” da arte internacional que o Julião estabeleceu relações de amizade e cumplicidade artística. Quer em exposições, quer na colecção de arte que foi construindo (uma das suas grandes obras, que em breve terá um museu em Lisboa), dialogou com artistas portugueses de gerações muito distintas e afastadas.

Nos últimos quatro anos, trabalhámos juntos numa exposição com os seus trabalhos em filme e vídeo, e estávamos a preparar um livro com todas essas obras (que se tornará realidade, ainda este Verão). Desde 2017, aceitou fazer parte do conselho consultivo da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, no Porto. Nesse papel, esteve na Escola das Artes imensas vezes, dialogando com os nossos alunos com a mesma frontalidade, generosidade e exigência de qualidade que sempre teve para com todos quantos o rodearam. 

Cada vez que cá voltava, para além das novidades todas que trazia, tentava explicar a mesma coisa: um artista não se pode ensinar. Para além do embaraço que nos causava esta sua lição crítica acerca das escolas de arte que pretendem profissionalizar os artistas, reforçava sempre que tudo depende da inquietação, da curiosidade e da verdade que os artistas devem colocar naquilo que se propõem fazer. E o Julião sempre foi dos mais inquietos, dos mais curiosos, dos mais verdadeiros e, por isso, é um dos grandes artistas.

Nos últimos meses, andávamos a combinar ele vir passar uma temporada ao Porto, porque tinha uma ideia para um filme que queria fazer connosco: “Eu depois conto-te”, dizia sempre. Nunca cheguei a saber qual era a nova ideia, nem poderemos fazer o filme que o Julião (que tanto amava o cinema) queria fazer. Talvez seja melhor assim.

Não podemos fazer esse tal filme que ele queria, mas havemos de continuar o que com ele começou. Assim estejamos nós à altura. Espero que hoje as salas e os átrios dos museus e das galerias sejam inundados por todos os juliões que tiverem à mão. Tirem-se das arrecadações e dos acervos as pinturas, as esculturas, as fotografias, os filmes, e celebrem o Julião.