A montanha

Naquela manhã quando soube da morte do Pedro, pensei que finalmente ele seria livre para subir a montanha e ver o que nunca conseguira.

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"É preciso ser muito forte para que os outros não nos limitem" Mag Rodrigues

Pedro nasceu com uma pequena deficiência física. Era uma coisa sem muito significado, ali nas costas, no entanto todos lhe podíamos apontar o dedo, o dedo da diferença. No fundo todos nascemos com esta deficiência (muito mais do que física, intrinsecamente mais grave) de apontar o dedo àquilo que não se apresenta como nos manuais. Uma diferença, por mais subtil que seja, torna-se na montanha em que todos queremos reparar nem que seja para ofuscar as nossas fragilidades, os nossos receios.

Pedro tinha este problema, a montanha dele estava ali visível nas costas e Pedro carregou o mundo e a diferença num sofrimento que estaria sempre paredes meias com a nossa indiferença.

Por causa desse problema (era um problema real) Pedro achou que nunca poderia ter uma vida igual à dos outros: infligiu a si mesmo a impossibilidade de viver plenamente porque via nos olhos dos outros a condenação pela sua diferença. Nunca escolheu roupas bonitas, apesar do dinheiro também não lhe permitir, nunca escolheu gostar de ninguém com medo que esse olhar pleno que vem do coração, não lhe fosse retribuído. Na verdade, dizem-me, Pedro terá amado uma rapariga que foi impedida de o amar pela sua deficiência. Ela terá seguido com a sua vida, a vida que a família lhe escolheu e Pedro ficou preso à sua montanha a partir da qual, não via nada. Via muito pouco porque os outros não lhe permitiam.

A vida de Pedro foi feita de pequenos confortos embrulhados em delicadeza: telefonemas à família de sangue demonstrando o seu apreço, a televisão que lhe trazia as alegadas alegrias do seu clube, um Natal e outras festas que vinham para lhe lembrar que não estava sozinho, que outros habitavam consigo a montanha. Pedro nunca quis ver mais além: temeu que o caminho tivesse demasiados obstáculos e que ele não o conseguisse percorrer. De certa maneira todos tememos essas pedras grandes que nos cortam o sonho, mas alguns de nós seguem em frente. O que Pedro não tinha era força porque a força é alimentada também pelos outros. É alimentada mesmo que a rejeição às vezes também surja como alavanca.

Pedro ficou a meio caminho de uma vida que podia ter sido outra não fosse o dedo apontado. Esse dedo que nos diz que temos de ficar no ponto de partida porque não reunimos condições para seguir em frente. Não estamos aptos para a corrida dos outros.

Pedro morreu numa manhã depois de a irmã lhe ter deixado o pequeno-almoço na cama. Há muito tempo que desistira de viver mesmo que o ar limpo à sua volta pudesse ser um bálsamo (acho eu aqui do meu posto de observação). Pedro tinha a montanha a dificultar-lhe a visão. Fomos nós que lhe criámos todos os impedimentos que não lhe permitiram ter uma vida melhor. E eu, por mais lágrimas que pudesse chorar, nunca serei absolvida de todas as pessoas que julguei pela sua diferença.

Pedro viveu 50 anos sem ser feliz. Talvez eu nunca me perdoe por isso. Tendo conhecido mal o rapaz gentil que se estendia em tempo e atenção para com os outros (porque aos outros também damos o que precisamos de receber) acho que o vou chorar inconscientemente para sempre. Talvez vá a tempo de reparar o meu olhar sobre aquilo que se nos afigura diferente, mas sabem é uma ilusão. Não há diferença num mundo onde nada nem ninguém é igual. Se o físico nos condena é porque muitas vezes o mental não se materializa. A diferença está no meio de nós.

No dia em que falei do Pedro a alguém que me sabe ouvir, atropelei as palavras em lágrimas e sufoquei. Atropelei-me. Fiquei atrás da minha montanha.

Tarde de mais, às vezes, vamos a tempo de ver mais além. É preciso ser muito forte para que os outros não nos limitem. E não ter medo de fazer a estrada cheia de facas, de dores, de buracos onde caímos e quase não saímos, mas saímos.

Naquela manhã quando soube da morte do Pedro, pensei que finalmente ele seria livre para subir a montanha e ver o que nunca conseguira.

Todos, em algum momento, precisamos de as mover.