Samba de intervenção e novos olhares sobre a tradição no regresso do Ciclo Mundos

E eis que regressa a programação de música do Teatro da Trindade. De 27 de Abril a 22 de Junho, haverá concertos de Luca Argel, Criatura e O Gajo, num recomeço a sonhar com a retoma do circuito internacional.

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O brasileiro Luca Argel dá início a mais uma edição do Ciclo Mundos DR

É possível que, em tempos de retoma da actividade musical em palco, não haja circuito tão afectado pela pandemia quanto aquele que respeita às músicas do mundo, dadas as enormes assimetrias geográficas na luta contra a covid-19. Daí que o regresso do Ciclo Mundos ao Teatro da Trindade, em Lisboa, a partir desta terça-feira, 27 de Abril, se faça com pequenos passos, de forma a garantir que não há artistas barrados nos aeroportos, obrigados a quarentenas ou retidos por algum voo de ligação ou pela falta de um teste negativo realizado nas horas imediatamente anteriores.

O foco para os próximos três meses está, por isso, apontado na direcção de três álbuns gravados e recentemente editados em Portugal: Samba de Guerrilha, de Luca Argel (concerto a 27 de Abril), Bem Bonda, do colectivo Criatura (25 de Maio), e Subterrâneos, de O Gajo (22 de Junho).

Samba de Guerrilha​, o recente lançamento de Luca Argel, artista brasileiro radicado no Porto, teve início numa investigação e num concerto-workshop dedicados à história política do samba, passando para o formato de álbum um apanhado de histórias e personagens ligadas ao combate ao racismo, à escravatura e às desigualdades. O samba, portanto, como canção de protesto.

Já o decateto Criatura voltou, cinco anos depois do seu primeiro álbum, a entrar pela tradição melódica e rítmica portuguesa, virando-a do avesso, forçando-a a chegar-se ao presente. Chamam ao novo disco, Bem Bonda“uma ode intervencionista à alternativa de evolução, à necessidade de mudança, à urgência de imaginarmos novos caminhos, sem esquecermos de onde vimos”.

A fechar este primeiro bloco de concertos para 2021, o Ciclo Mundo receberá O Gajo – o mesmo será dizer João Morais de viola campaniça nos dedos. Acompanhado pelo contrabaixista Carlos Barretto e pelo percussionista José Salgueiro, O Gajo convida o cordofone alentejano a viajar para paragens desconhecidas, transplantado para contextos inesperados.

Lançado em 2016 pela Fundação Inatel, o Ciclo Mundos levou já ao Teatro da Trindade muitos dos nomes maiores das músicas locais de todo o mundo, como Ana Tijoux, Natacha Atlas, Mário Lúcio, DakhaBrakha, Songhoy Blues, Oumou Sangaré, Leyla McCalla, Chassol ou o entretanto desaparecido Tony Allen.