Obras no apartamento de Londres podem fragilizar Boris Johnson

Primeiro-ministro britânico e o seu antigo conselheiro Dominic Cummings estão envolvidos numa guerra com consequências imprevisíveis. Partido Trabalhista aproveita para tentar recuperar terreno antes das eleições de 6 de Maio.

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O Governo britânico garantiu que Johnson pagou as obras do seu bolso Reuters/TOBY MELVILLE

A popularidade conquistada nos últimos meses pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, por causa do sucesso da vacinação contra a covid-19, pode sofrer um abalo nos próximos dias e semanas, no meio de uma guerra com o seu antigo assessor Dominic Cummings.

Em causa está uma série de revelações feitas por fontes anónimas nos jornais britânicos, nas últimas semanas, a implicar Johnson e o ex-primeiro-ministro David Cameron em casos de lobbying, e o actual governante, em particular, de pedir dezenas de milhares de libras a financiadores do Partido Conservador para pagar a remodelação do apartamento de 10 Downing Street, a residência oficial do líder do Governo britânico, onde vive com a sua noiva, Carrie Symonds, e o filho de ambos.

Na quinta-feira, uma fonte anónima do Governo britânico acusou o antigo principal conselheiro de Johnson, Dominic Cummings, de ser o responsável pela série de informações prejudiciais para o Partido Conservador que têm sido passadas aos jornais desde meados de Abril.

Cummings, o arquitecto da campanha do “Brexit” e principal conselheiro de Johnson até Novembro de 2020, respondeu à acusação num texto que publicou no seu blogue, na sexta-feira, em que lança um ataque sem precedentes ao primeiro-ministro, que está a ser aproveitado pelo Partido Trabalhista para fragilizar os conservadores nas eleições autárquicas marcadas para 6 de Maio.

“Eu disse-lhe que os planos dele para que fossem os financiadores [do Partido Conservador] a pagar a remodelação [do apartamento] eram antiéticos, absurdos e possivelmente ilegais, e quase de certeza violavam as regras de transparência sobre financiamento político. Recusei-me a ajudá-lo a organizar esses pagamentos”, disse Cummings.

Vingança esperada

Segundo o jornal The Guardian, várias figuras do Partido Conservador – no Governo e no Parlamento – ficaram chocadas quando leram a acusação anónima contra Dominic Cummings, na quinta-feira, e já esperavam o contra-ataque do antigo conselheiro de Johnson. 

“É óbvio que nunca viram o Exterminador Implacável”, disse um dos deputados conservadores ouvidos pelo Guardian

“A primeira coisa em que pensei quando soube da explosão do Cummings foi ‘quem é que podia esperar uma reacção destas?’”, disse um antigo ministro do Governo de Johnson, também citado pelo Guardian sob anonimato. “A resposta é: toda a gente. Toda a gente lhe disse [a Johnson] que não o levasse para o Governo porque isto ia acabar assim. Agora, Cummings tem um ano e meio de segredos para divulgar quando lhe apetecer. Tudo isto era completamente evitável.”

Este domingo, a ministra responsável pelo Comércio Internacional, Liz Truss, reafirmou que Johnson pagou do seu bolso as obras de remodelação, referindo-se ao caso como “uma enorme distracção” do sucesso da vacinação contra a covid-19.

Pressionada pelos jornalistas, a governante foi incapaz de garantir que o montante inicial não foi pago de outra forma, e disse apenas que recebeu “a garantia de que todas as regras foram cumpridas”.

Trabalhistas à espreita

A menos de duas semanas das eleições locais em Inglaterra, e para os parlamentos da Escócia e do País de Gales, o Partido Trabalhista exigiu, no sábado, a presença urgente no Parlamento de um representante do Governo para responder às questões sobre Johnson.

De acordo com a sondagem mais recente da empresa Opinium para o jornal Observer, 37% dos inquiridos descrevem Johnson como “completamente corrupto”, contra 16% que dizem o mesmo do líder da oposição, Keir Starmer. O estudo foi feito antes do texto publicado por Dominic Cummings no seu blogue.

Ainda assim, a mesma sondagem dá aos conservadores uma vantagem de 11 pontos sobre os trabalhistas (44%-33%) – o que deveria ser mais preocupante para Starmer do que para Johnson.

De acordo com o Observer, o Partido Trabalhista acredita que as recentes acusações de Cummings contra Johnson vêm dar mais legitimidade à oposição para pressionar o Governo e os conservadores, numa altura em que o sucesso da vacinação tem protegido o primeiro-ministro de outros ataques.