Condenada a 60 dias de prisão, Howey Ou iniciou uma greve de fome para proteger a Terra

Após ter sido condenada a 60 dias de prisão por protestar contra a exploração mineira na Suíça, Howey Ou decidiu começar uma greve de fome. Com apenas 18 anos, a activista tem captado atenção mundial com os seus protestos ambientais e é muitas vezes apelidada de “Greta Thunberg chinesa”. Mas há um factor que as diferencia: a repressão policial.

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Howey Ou, uma activista climática chinesa, durante o primeiro dia da sua greve de fome, em Lausanne, Suiça. LAURENT GILLIERON/EPA

Quem tem passado pela Place de la Palud, na cidade suíça de Lausanne, tem visto uma imagem pouco usual desde segunda-feira, 19 de Abril. Sentada numa pequena escadaria, em frente à Fonte da Liberdade, encontra-se Howey Ou, uma activista chinesa de 18 anos que começou uma greve de fome de três dias, anunciada aos transeuntes através de um pedaço de cartão onde se lê: “Defender a natureza não é um crime, é uma necessidade.”

Inspirada pelo exemplo de Greta Thunberg, a activista tem vindo a denunciar as consequências das alterações climáticas no seu país de origem, a China, mas a sede por mudança já se alastrou a outros continentes. Desta vez, Howey Ou juntou-se a 200 activistas na ocupação da colina de Mormont, com o objectivo de protestar contra a “inacção do Governo suíço perante a emergência climática e ecológica, que permite que a multinacional Holcim explore a montanha sem qualquer tipo de justificação”, afirma em comunicado enviado às redacções do país.

A activista está a protestar contra uma sentença de prisão de 60 dias e uma multa que considera “injusta”, ao mesmo tempo que chama a atenção para as alterações climáticas. LAURENT GILLIERON/EPA
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Segundo a Rádio e Televisão Suíça (RTS), o protesto foi realizado em Março e os activistas cometeram uma série de infracções, onde se destacam invasões domiciliárias e não cumprimento de decisão judicial, impedimento da prática de acto oficial e, em menor escala, violência contra funcionários. No total, foram detidas 83 pessoas — e Howey Ou consta da lista.

No cartaz que a acompanha, a activista afirma que foi sentenciada a 60 dias de prisão, para além de ter sido condenada a pagar uma “multa injusta” de 1200 francos (cerca de 1087 euros), revela no Twitter. “A empresa Holcim é apenas a ponta do icebergue do sistema económico tóxico em que vivemos. A emergência climática é a maior crise existencial do século XXI”, afirma a activista, que vai ocupar aquele pequeno lanço de escadas até ao fim desta quarta-feira.

Ignorada, ridicularizada e ostracizada

A consciência ecológica de Howey Ou foi sendo construída aos poucos, na adolescência. Em entrevista ao The New York Times, em Dezembro de 2020, a activista relembrou o momento em que “despertou” para o problema climático que assola o mundo e tem o plástico como um dos principais inimigos. Ao ler um artigo da National Geographic, que detalhava os efeitos devastadores do uso em excesso deste material na vida marinha, ficou inconformada e decidiu agir.

Virou-se para a realidade que já conhecia e tentou persuadir o director da escola onde estudava a deixar de usar utensílios de plástico descartável na cantina. No entanto, não teve grande sucesso. “Ele disse-me que os talheres descartáveis de plástico eram muito higiénicos. Eu acho que foi por razões de custo, que iria aumentar com a substituição”, contou ao jornal.

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Voluntários tentam limpar uma barragem cheia de garrafas de plástico e outro lixo, na Bulgária. DIMITAR DILKOFF
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Um trabalhador recolhe garrafas de plástico, na China. REUTERS/Stringer

Após esta pequena derrota, a vontade de mudar as práticas ambientais da cidade natal, Guilin, no Sul da China, não esmoreceu. Aliás, só lhe deu mais força, ao ponto de decidir não prosseguir os estudos e dedicar-se, inteiramente, à causa climática, logo após ter assistido ao documentário Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore, quando completou 16 anos.

Nos dois anos que passaram desde esse dia, Howey Ou plantou árvores em Guilin, juntou-se a várias greves climáticas e encetou uma série de campanhas “solitárias e frustrantes” pelo clima, o que lhe valeu várias comparações com a activista sueca Greta Thunberg, umas semanas mais nova que ela.

A audácia e determinação podem, até, ser pontos comuns no percurso de ambas, mas a recepção às campanhas que promovem não podia ser mais oposta. Enquanto Greta é exaltada pelo seu activismo, que lhe valeu a nomeação de “Pessoa do Ano” pela revista Time, em 2019, Howey Ou é “ignorada, ridicularizada e ostracizada” na China, escreve o The New York Times.

Num país onde qualquer protesto é olhado com grande desconfiança, a activista já teve muitos encontros com as autoridades, que repetidamente desvalorizam o seu trabalho. Quando se juntou à Greve Climática Internacional na capital chinesa, em Setembro de 2018, Howey Ou foi detida e interrogada durante horas pelas forças policiais, que, no final, apenas lhe disseram que o que estava a fazer “não tinha significado”.

O mesmo aconteceu quando levou o movimento de Greta Thunberg Fridays for Future, pela primeira vez, até à China, em 2019. Tal como na greve de fome, foi sozinha e, durante seis dias, protestou em frente a vários edifícios governamentais da cidade de Guilin, pedindo o fim da inacção do poder político, até ter sido detida pela polícia mais uma vez. “O feedback não tem sido sempre positivo”, relativizou, mas a verdade é que as suas acções já ganharam relevância mundial e fizeram com que Greta a denominasse como “verdadeira heroína”.

Mesmo assim, a activista chinesa considera que as comparações com a jovem sueca são desproporcionais. “Eu acho que o conhecimento da Greta sobre a crise climática e o seu profundo entendimento e cuidado com o mundo é algo que eu ainda não tenho”, afirmou em entrevista ao The New York Times.

Um sinal da repressão que estava por vir

No entanto, a benevolência das autoridades chinesas no primeiro protesto de Howey Ou parece ter sido a excepção que confirma a regra. À Vice News, a jovem contou que, após ter sido detida pelo protesto Fridays for Future, os agentes policiais pediram aos pais que não a deixassem publicar no Twitter ou falar com estrangeiros ou jornalistas. “Era um sinal do que estava para vir”, revelou.

Durante três dias, a conexão à Internet foi cortada na casa de Howey Ou e o número de telemóvel foi suspenso. “Os interrogatórios também continuaram, com a polícia a telefonar aos meus pais durante dias, enquanto trabalhavam. Tudo isto criou um clima de tensão entre mim e os meus pais”, acrescentou.

Já quando a activista de 18 anos tinha decidido não prosseguir com os estudos, os pais ficaram de pé atrás, não aprovando a decisão. Os avisos da polícia chinesa foram a última gota e, passados uns dias, decidiram confiscar-lhe o telemóvel e todos os dispositivos electrónicos. “Foi muito frustrante e esgotante. Acabei por sair de casa e andar um pouco por todo o país, durante uns meses”, revelou. Agora, Howey Ou vive sozinha, mas os pais têm ajudado e até se tornaram vegetarianos, como ela.

Nos últimos anos, a activista tem tentado encontrar e criar alianças com outros activistas e movimentos comunitários chineses, o que se tem revelado, na sua grande maioria, um desperdício de energia. “Muitas das ONG da China são, na realidade, financiadas pelo Governo. Tendem a ser mais moderadas e nunca desafiariam agressivamente o poder político. Então eu tenho sido ostracizada nos círculos ambientais locais e excluída de eventos e conferências sobre as alterações climáticas no país.”

O apoio que a faz continuar vem de fora, principalmente do Twitter, onde contacta com outros activistas da Nova Zelândia, Austrália, Japão e, até mesmo, Hong Kong. “É uma óptima comunidade, que me dá esperança e confiança”, revelou, embora tenha reconhecido que esta batalha não pode ser feita sozinha. “Se não conseguirmos mobilizar pessoas suficientes para acordarem e fazerem mudanças acontecer, através de acção colectiva, então a nossa civilização está condenada.”

Por agora, Howey Ou continua sentada naquele pequeno lanço de escadas na Suíça. Ao contrário do que registou na sua terra natal, o apoio tem chegado de todo o lado. No Twitter escreve que as pessoas lhe têm trazido agasalhos, cobertores, casacos e luvas, e convida-as a parar e beber um pouco de chá de jasmim com ela. “Nós somos poderosos. Nós, as pessoas [We, the people]”, termina, em referência às emblemáticas palavras do preâmbulo da constituição dos Estados Unidos da América.

Texto editado por Ana Maria Henriques

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