Dilma Rousseff dá tiro no pé

Por muitas lembranças daqueles anos e pelo repúdio ao covarde golpe parlamentar de 2016, levado a cabo pela miséria de elites que domina o Brasil, dói-me hoje ver Dilma emprestar a sua inegável autoridade moral para inocentar José Sócrates, num prefácio em que tece um paralelo irreal entre o que se passou com Lula na operação Lava-Jato e a Operação Marquês.

Tem sido notícia nos últimos dias, e seguramente voltará a ser nos próximos, o lançamento do livro de José Sócrates Só agora começoucom prefácio de Dilma Rousseff, ex-Presidenta do Brasil.

Dilma Rousseff foi tremendamente injustiçada no processo de impeachment em 2016. Muitos se lembram do espetáculo degradante para a democracia protagonizado pelos votantes pró- impeachment na famosa sessão da Câmara dos Deputados que decidiu o afastamento da Presidenta. Particularmente asquerosa foi a declaração do então deputado Bolsonaro, que homenageou o torturador Brilhante Ustra, oficial que participou nas torturas a Dilma Rousseff, quando presa pela ditadura militar em janeiro de 1970 por sua militância na resistência ao regime militar que durou 21 anos no Brasil, de 1964 a 1985.

Há uma unanimidade no Brasil, incluindo os organizadores do golpe parlamentar de 2016, como os então vice-presidente Temer e o presidente da Câmara Humberto Cunha, que a honestidade pessoal de Dilma Rousseff está acima de qualquer suspeita.

Em março de 2017 fui um dos organizadores da recepção a Dilma em Lisboa, em nome da Casa do Brasil, juntamente com o Prof. Carvalho da Silva, da Universidade de Coimbra, e a Dra. Pilar del Rio, diretora da Fundação Saramago. Foram três dias intensos e com muita repercussão mediática. Um sucesso. Dilma desmascarou com veemência e credibilidade o golpe anti- democrático orquestrado pelas elites e pela grande mídia, que a afastou da presidência.

Tenho um grande apreço e respeito pessoal por Dilma Rousseff, a quem me liga a proximidade de militância na resistência à ditadura brasileira, nos duros anos 68/71.

Por muitas lembranças daqueles anos e pelo repúdio ao covarde golpe parlamentar de 2016, levado a cabo pela miséria de elites que domina o Brasil, dói-me hoje ver Dilma emprestar a sua inegável autoridade moral para inocentar José Sócrates, num prefácio em que tece um paralelo irreal entre o que se passou com Lula na operação Lava-Jato e a Operação Marquês. Prezada companheira Dilma, aqui em Portugal não há nem houve nada que se compare à Lava- Jato, nem juiz que se compare ou tenha tido o poder e os objetivos de Sérgio Moro. Muito menos existe aqui o nível de judicialização da política e de politização do Judiciário que há no Brasil. Aqui as instituições democráticas são muito mais sólidas e europeias.

Compreende-se que o então primeiro-ministro José Sócrates tenha desenvolvido ótimas relações com os Presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff. Mas daí, em função destes laços criados no exercício do poder, servir de testemunha abonatória, ao prefaciar seu livro, a um político que está reconhecidamente envolto em muito dinheiro de procedências mais que duvidosas, vai um grande passo.

No Brasil, Lula, depois de 580 dias de prisão e de um calvário judiciário que ainda não terminou, é cada vez mais um gigante político. E Dilma, vítima da ação golpista de tantos Tartufos, continua gozando de grande prestígio.

Aqui, Sócrates transformou-se, e há muito, num cadáver político. Um mitómano que continuará a lutar com muitos moinhos de vento, cada vez mais isolado e repudiado pela opinião pública, pelos partidos, pelos eleitores. Um ex-político que só enxerga o próprio umbigo e que, mais que provavelmente, será condenado no julgamento que acontecerá algum dia, sabe-se lá quando, pois, isto é certo, a Justiça aqui é muito lenta.