China junta os amigos e procura dividir o clã liderado pelos EUA

Pequim aproximou-se nas últimas semanas da Rússia, do Irão e da Coreia do Norte, ao mesmo tempo que prometeu ajuda financeira pós-covid aos países não-alinhados e aos parceiros do Ocidente.

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Xi Jinping, Presidente da China, e Vladimir Putin, Presidente da Rússia UESLEI MARCELINO/Reuters

A China está a estreitar os laços com parceiros autocráticos como a Rússia e o Irão, assim como com países regionais economicamente dependentes, ao mesmo tempo que acena com sanções e ameaças para tentar fracturar as alianças que os Estados Unidos estão a construir contra si.

Preocupante para Pequim, porém, consideram muitos diplomatas e analistas, é que a Administração Biden conseguiu que outras democracias tenham endurecido as suas posições sobre questões de direitos humanos e de segurança regional – como a disputa no Mar do Sul China – em relação a uma China em ascensão e globalmente assertiva.

“A China sempre se opôs categoricamente ao empenho dos EUA em formar blocos políticos ideologicamente alinhados e clãs anti-China”, reagiu o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, num comunicado enviado à Reuters.

“Temos esperança de que os países mais relevantes percebam claramente os seus próprios interesses (…) e que não fiquem reduzidos a ferramentas anti-China dos EUA”, acrescentou.

Na sequência das negociações conturbadas do mês passado entre diplomatas de topo dos EUA e da China, em Anchorage [Alasca, EUA], Pequim parece ter intensificado o seu envolvimento com países como a Rússia, o Irão e a Coreia do Norte, que, por sua vez, também são alvo de sanções lideradas pelos EUA.

Fraco consolo

“A China está muito preocupada com a diplomacia de alianças dos EUA”, considera Li Mingjiang, professor associado da S. Rajaratnam School of International Studies, de Singapura, sublinhando aquilo a que rotula como tentativas da China se “agrupar em busca de calor” com os Governos segregados pelo Ocidente.

Dias depois do encontro no Alasca, o Conselheiro Estatal Wang Yi, chefe da diplomacia do Governo chinês, recebeu o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, que defendeu que Moscovo e Pequim devem combater aquilo o que consideram ser uma agenda ideológica do Ocidente.

Uma semana depois, Wang viajou até ao Irão e assinou um pacto económico a 25 anos, que o professor Shi Yinhong, da Universidade de Renmin [Pequim], diz que “deixa efectivamente exposta qualquer empresa chinesa a sanções directas ou indirectas dos EUA”.

Entretanto, o Presidente Xi Jinping trocou mensagens com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, defendendo uma parceria mais aprofundada com outro país cujas ambições de possuir armas nucleares também atraíram sanções.

Mas a China está igualmente a cortejar os seus vizinhos economicamente dependentes. Nas últimas semanas, Wang recebeu na província de Fujian, no Sudeste, ministros da Indonésia, da Malásia, das Filipinas, de Singapura e da Coreia do Sul.

Li garantiu que Pequim vai cumprir as promessas que fez para ajudar estes países a revitalizarem as suas economias depois da pandemia de covid-19, levando-os a pensar duas vezes antes de se alinharam com os Estados Unidos.

E depois de diplomatas e generais das Filipinas terem denunciado a China pelo envio de navios de milícias para as suas águas territoriais, o Presidente Rodrigo Duterte disse, no entanto, que não iria permitir que as disputas territoriais no Mar do Sul da China se metessem no caminho da cooperação com a China em matéria de vacinação e recuperação económica.

Formação de blocos

Joe Biden continua a pressionar Pequim em muitas das mesmas questões que a Administração Trump já pressionava, mas com uma estratégia mais focada em alianças.

No encontro da passada sexta-feira entre o Presidente dos EUA e o primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga, os dois países apresentaram um frente unida contra a assertividade da China em questões tão variadas como a disputa das ilhas do Mar Oriental da China – conhecidas por lhas Senkaku no Japão e Diaoyu na China – ou os direitos em Hong Kong e na região de Xinjiang.

No último mês, os Estados Unidos, a União Europeia, o Reino Unido e o Canadá impuseram sanções coordenadas à China por causa dos relatos de trabalhos forçados na região Ocidental chinesa de Xinjiang, ao mesmo tempo que mais de uma dezena de países se juntaram para a acusar de ter escondido informação de uma investigação sobre a origem da pandemia de covid-19.

A Alemanha, o Reino Unido, os Países Baixos, o Canadá e a França uniram-se recentemente aos Estados Unidos na decisão de enviar navios de guerra para as zonas em disputa no Mar do Sul da China, ou anunciaram planos para o fazer.

Washington também disse que pretende uma “abordagem coordenada” com os seus aliados sobre a participação nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, em Pequim, por causa das denúncias de violações de direitos humanos, particularmente relacionadas com o tratamento dos uigures e de outras minorias muçulmanas em Xinjiang.

Partir a aliança

A China respondeu furiosamente às demonstrações de unidade dos aliados de Washington, com os seus diplomatas a catalogarem o Japão como um “vassalo” e o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, como o “cão de corrida” dos Estados Unidos.

A estratégia da China para enfraquecer esta unidade passa por encorajar os aliados dos EUA a interagirem com Pequim de forma autónoma, colocando os benefícios económicos em primeiro lugar, mas também por puni-los caso adiram a iniciativas conjuntas contra a China.

Pequim respondeu às sanções da UE contra dirigentes chineses, por causa de Xinjiang, com contra-sanções desproporcionadamente duras, consideram os analistas, que podem vir a torpedear acordos de investimento económico há muito aguardados em certos países.

Janka Oertel, directora do Departamento da Ásia no European Council on Foreign Relations, acredita que Pequim está preparada para sacrificar benefícios económicos por interesses estratégicos, se considerar que estes estão a ser ameaçados pela aliança EUA-UE.

Xi deixou bem clara esta posição numa chamada telefónica recente com a chanceler alemã, Angela Merkel, dizendo-lhe que espera que “a UE faça um juízo adequado sobre a sua independência”.

Mas a China ainda precisa da tecnologia e do investimento europeu, afirma Joerg Wuttke, presidente da Câmara de Comércio Europeia na China. “Apesar das sanções, ainda falam connosco e as transacções comerciais prosseguem, e isso é bastante tranquilizador”, informa.

Pequim também ainda não desistiu de tentar persuadir Washington de que a cooperação é melhor que a competição, tal como demonstrou na semana passada, quando garantiu ao enviado especial dos EUA para o Clima, John Kerry, o seu apoio à cimeira virtual climática de Biden desta semana.

“A China espera que Washington venha a perceber que é do interesse dos EUA ter o país como amigo e não como inimigo”, explica Wang Wen, professor no Instituto Chongyang da Universidade de Renmin.

Reuters