Negacionismo político

As dúvidas, a desconfiança e o medo que pairam sobre as vacinas por decisões políticas que são criminosas são também um negacionismo político que deve ser ferozmente atacado.

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"Interromper a vacinação por probabilidades que estatisticamente são ‘zero’ de complicações é um insulto aos que morrem por covid-19" Ricardo Lopes

O maior desafio de saúde pública dos últimos cem anos atinge hoje a marca dos 3.000.000 de mortos. Além de este número estar certamente subestimado, já devíamos todos ter compreendido que a este temos de acrescentar outros tantos milhões de mortos por doenças “não covid”, devido ao engasgamento dos serviços de saúde em momentos de stress extremo, e muito mais difícil de contabilizar são os que sofreram horrores ou perderam a vida pelas consequências extremas e extraordinárias que se tiveram de tomar para que se reduzisse o contágio entre as pessoas.

A ciência respondeu brilhantemente e em tempo recorde, mas o negacionismo político insiste em perpetuar este sofrimento histórico. O caso do Brasil é paradigmático, um extremista negacionista na presidência já desvalorizou a doença, as máscaras, ridicularizou a vacina e foi de frente contra os governadores de Estado que actuaram com mais rigor perante a pandemia. Se as falhas de oxigénio em Manaus nos causaram arrepios por morrerem pessoas pela falta de algo que nunca pensámos possível poder falhar num hospital, agora os relatos de médicos e enfermeiros do estado do Rio de Janeiro são piores do que qualquer filme de terror. A falta de anestésicos gerais e analgésicos para doentes dos cuidados intensivos põe a vida e a morte destas pessoas num nível aberrante de desumanidade. Doentes em sofrimento imensurável, com um tubo na traqueia, amarrados à cama, colocam questões éticas sobre o próprio exercício da medicina. Isto é uma tortura para os doentes e para os profissionais de saúde que estão a ser destruídos no processo. O julgamento político de Jair Bolsonaro sobre a pandemia já está em curso, e no entendimento de muitos este e outros políticos deverão ser julgados pelas suas acções ou falta delas, por crimes contra a humanidade. Este negacionismo político não tem qualquer explicação, nem pode ter perdão.

Menos grotesco, mas talvez com um impacto mais extenso e de maior gravidade, é o negacionismo político que põe em pausa a solução, e em causa a ciência. As vacinas da AstraZeneca e da Johnson & Johnson (J&J) estão a roubar vidas a cada dia que passam nas gavetas. Segundo a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, após 7.000.000 de tomas da J&J houve um caso fatal de tromboembolismo pulmonar, 0,000014% , se isto não é igual a zero em termos de gestão de risco então fechem todos os hospitais, porque não há nenhum tratamento, nenhum medicamento, nenhuma cirurgia que se possa propor a um doente que tenha um risco tão baixo de fatalidade. Se depois de tudo o que vivemos neste último ano ainda é preciso explicar o conceito de risco,benefício para vacinas que são seguríssimas e eficazes contra uma doença que matou três milhões e que rebentou com todos os melhores serviços de saúde do mundo, então isto parece uma brincadeira de mau gosto.

As dúvidas, a desconfiança e o medo que pairam sobre as vacinas por decisões políticas que são criminosas são também um negacionismo político que deve ser ferozmente atacado.

Interromper a vacinação por probabilidades que estatisticamente são “zero” de complicações é um insulto aos que morrem por covid-19, por doenças “não covid”, e por todos os que estão a sofrer no desespero as consequências de uma sociedade que ainda está longe de funcionar na normalidade.

Não brinquem com a ciência, e ataquem este negacionismo político, porque com o país a abrir, a única coisa que nos safa de uma quarta vaga de internamentos e de mortes é aquela pica no braço.