Reacções à Superliga: António Costa recusa ideia, sem hesitações

Primeiro-ministro português pronunciou-se contra a criação de uma competição organizada à margem das instituições que tutelam o futebol europeu, rejeitando uma ideia em que os princípios e valores estejam à venda.

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António Costa condena ideia de criação de uma Superliga europeia de futebol Nuno Ferreira Santos

Têm surgido em catadupa as reacções ao anúncio da criação de uma Superliga europeia de futebol. As posições têm chegado de vários quadrantes, do desporto à política, e vão essencialmente no sentido de reprovar uma competição que não se rege pelo princípio do mérito desportivo.

Governo desfavorável à criação da Superliga

O primeiro-ministro, António Costa, afirmou que a criação da Superliga europeia é uma ideia que deve ser “recusada sem hesitação”, considerando existirem princípios e valores que “não podem estar à venda”.

“A proposta de uma competição de futebol no espaço Europeu organizada fora das instituições representativas do sector, nomeadamente as Ligas, as Federações e a UEFA, tem de ser recusada sem nenhuma hesitação”, referiu o Primeiro-ministro português, numa mensagem publicada na rede social Twitter.

António Costa salienta que está ao lado das instituições desportivas nacionais e internacionais que se recusam “de forma veemente” a aceitar que a competição se venha a realizar.

“Os princípios da solidariedade, da valorização do resultado desportivo e do mérito não podem estar à venda”, frisou.

Antes, o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, partilhara “a visão das autoridades nacionais e europeias de futebol”, não sendo “favorável à criação de uma competição desportiva a nível europeu que não privilegia a inclusão, a solidariedade e o mérito desportivo, colocando os interesses de uma pequena parte à frente do bem comum”.

“Este é um desporto com milhões e milhões de adeptos em todo o continente e com uma importante função social, que deve ser preservada”, rematou o governante, que tutela o desporto.

Bayern e Borussia contra egoísmo

Os alemães Bayern Munique e Borussia Dortmund, da direcção da Associação Europeia de Clubes (ECA), estão “totalmente contra” a criação da Superliga europeia, afirmou Hans-Joachim Watzke, presidente do Borussia.

O presidente do Bayern, Karl-Heinz Rummenigge, considera que a nova competição “não vai resolver os problemas financeiros” decorrentes da pandemia de covid-19.

“Não acredito que a Superliga vá resolver os problemas financeiros dos clubes europeus originados pela pandemia. Os clubes devem, sim, trabalhar em conjunto para assegurar que os custos, sobretudo os salários de jogadores e comissões de agentes, estão de acordo com as receitas, de forma a tornar todo o futebol europeu mais equilibrado”, transmitiu Rummenigge, em comunicado divulgado no site oficial do Bayern.

“O Bayern não esteve envolvido na criação da Superliga. Estamos convencidos de que o actual formato do futebol europeu garante bases sustentadas. O Bayern congratula a alteração feita ao formato da Liga dos Campeões, porque acreditamos que é o passo certo para ajudar a desenvolver o futebol. A mudança na fase de grupos vai contribuir para o aumento do entusiasmo e da emoção na competição”, disse.

Luís Figo condena “super” ganância

O antigo internacional português Luís Figo criticou a “ganância” dos clubes que anunciaram a “criação” de uma Superliga europeia, competição que “não tem nada de super”.

“Esta medida gananciosa e insensível traria o desastre para o futebol de formação e desenvolvimento, para o futebol feminino e para a comunidade futebolística no geral”, escreveu o antigo futebolista no Twitter.

Figo, que jogou em três dos 12 clubes proponentes - Inter de Milão, Real Madrid e Barcelona -, descreve o torneio como algo que serve “apenas donos interessados em si mesmos, que pararam de pensar nos adeptos há muito, com total desrespeito pelo mérito desportivo”.

O antigo avançado usou a palavra “trágico” para descrever a situação, antes de partilhar uma fotografia com uma tarja da UEFA que diz: “Nós queremos saber de futebol”.

Boris Johnson: “Planos danosos para o futebol"

“Os planos para uma Superliga europeia seriam danosos para o futebol e nós apoiamos as autoridades do futebol na tomada de medidas. Esses planos apontam ao coração dos campeonatos internos e dizem respeito aos adeptos de todo o país”, escreveu no Twitter Boris Johnson, primeiro-ministro de Inglaterra.

“Os clubes envolvidos têm de responder aos adeptos e à comunidade do futebol antes de darem novos passos”, acrescentou, numa mensagem em especial dirigida aos emblemas britânicos que fazem parte da génese desta prova: Liverpool, Manchester City, Manchester United, Tottenham, Chelsea e Arsenal.

Governos de Itália e Hungria apoiam UEFA

Os primeiro-ministros de Itália e Hungria, Mario Draghi e Viktor Orbán, respectivamente, manifestaram já incondicional apoio à UEFA na oposição à criação da Superliga Europeia.

“O governo está a acompanhar de perto o debate em torno do projecto da Superliga e apoia firmemente as posições das autoridades do futebol italiano e europeu no sentido de preservar os campeonatos nacionais, os valores da meritocracia e a função social do desporto”, disse Mario Draghi, num curto comunicado do governo italiano.

O Primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, também está ao lado da UEFA e da FIFA, bem como da federação do seu país, na demanda de “proteger a integridade das competições federais, tanto a nível nacional como europeu”.

“A Hungria está convencida de que a beleza e a grandeza do maior jogo do mundo residem no facto de pertencer a todos... e os ricos não podem apropriar-se dele”, vincou o governante.

FIFPro lamenta que os jogadores sejam ignorados

A Associação Internacional de Futebolistas Profissionais (FIFPro) manifestou preocupação face ao possível impacto da criação da Superliga europeia, e lamentou que os jogadores sejam ignorados nas negociações e ameaçados de exclusão das selecções dos seus países.

“A chegada do futebol europeu a este ponto de possível ruptura é reflexo de uma governação na qual alguns têm usufruído de demasiados poderes e grupos, como os jogadores e os adeptos, têm sido ignorados”, refere a FIFPro, em comunicado.

“Os jogadores continuam a ser usados como activo e alavanca nas negociações. Isto é inaceitável para a FIFPro, para as 64 associações nacionais e mais de 60.000 jogadores que representamos”, refere o comunicado, acrescentando: “Opomo-nos totalmente a medidas, de qualquer das partes, que retirem direitos aos jogadores, como, por exemplo, a sua exclusão das selecções”.

“O futebol baseia-se num património social e cultural único e, para que este se mantenha, é fundamental uma cooperação sã entre as competições nacionais e internacionais. Uma nova competição que prejudique estes princípios pode causar danos irreparáveis”, considera a FIFPro.

Presidente do Parlamento Europeu assume oposição   

O presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli, afirmou que “é preciso defender o modelo europeu de desporto”, em referência ao projecto de criação da Superliga europeia.

“Oponho-me a que o futebol seja apenas acessível aos ricos! O desporto tem de ser para toda a gente”, lê-se numa mensagem publicada por Sassoli na sua conta oficial na rede social Twitter.

Federação alemã critica "interesses egoístas"

A Federação Alemã de Futebol (DFB) também já se manifestou “frontalmente contra” a iniciativa “egoísta” de 12 clubes europeus, nenhum deles germânico, de criar uma Superliga europeia.

“O futebol deveria sempre reger-se pelo rendimento desportivo [e não por] interesses económicos e egoístas de alguns clubes”, apontam os dirigentes alemães, considerando que o sistema de competições vigente é “solidário”, pois as equipas qualificam-se tendo em conta “as classificações obtidas nas respectivas competições nacionais”.

“Cada equipa deve decidir se quer continuar a ser parte solidária da organização do futebol, ou pensar apenas, de forma egoísta, nos seus interesses, fora da UEFA e das respectivas associações nacionais”, acrescenta a DFB.

Pinto da Costa: “Não estamos preocupados"

“Houve contactos informais de alguns clubes, mas não demos grande atenção por duas razões. Primeiro, a União Europeia não permite que haja um circuito fechado de provas como há na NBA. Segundo, estando a nossa federação contra isso e fazendo parte da UEFA, enquadrado nesse quadro, não podemos participar numa coisa que é contra as regras da União Europeia e UEFA”, reagiu nesta segunda-feira o presidente do FC Porto.

“Se isso for para a frente, tenho dúvidas. Não estamos preocupados. Estamos na Champions e esperamos continuar a estar por muitos anos”, acrescentou o dirigente. “Olhamos para os que estão do outro lado, como o Bayern, o Ajax ou o PSG. Se nós estamos incluídos na UEFA não podemos pensar que, saindo alguém, temos de ir atrás.”

Margaritis Schinas: “Defender modelo europeu" 

O comissário europeu Margaritis Schinas afirmou nesta segunda-feira que a União Europeia deve defender “um modelo europeu de desporto baseado na diversidade e na inclusão”. “Devemos defender um modelo europeu de desporto baseado em valores, baseado na diversidade e na inclusão”, lê-se numa mensagem publicada na conta oficial da rede social Twitter do político grego.

O comissário com a pasta da Promoção do Modo de Vida Europeu sublinha que “não há margem” para que o modelo europeu de desporto “seja reservado aos poucos clubes ricos e poderosos” e denuncia que estes clubes “querem cortar as ligações com tudo aquilo que as associações representam”, referindo-se às “Ligas nacionais [de futebol], promoções e despromoções, e apoio ao futebol amador”.

La Liga: “Ameaça ao desporto espanhol"

Também o organismo que tutela o campeonato espanhol, La Liga, se manifestou contra a criação da prova, num comunicado emitido nesta manhã: “Esta competição europeia que é sugerida não passa de uma proposta egoísta, montada para enriquecer ainda mais os super-ricos. Vai minar o espírito do jogo e ter um impacto negativo imediato no futuro de La Liga”.

Sob a direcção de Javier Gómez, o organismo considera também que esta estratégia “ameaça o resto do desporto espanhol, para o qual La Liga contribuiu com mais de 126 milhões de euros, como parte de um acordo com o Governo espanhol e a federação”.

“Usaremos todas as medidas à nossa disposição e trabalharemos com o intuito de defender a integridade e o futuro do futebol espanhol e o interesse da modalidade”.

Comissão Europeia: “Desporto aberto a todos"

A Comissão Europeia também já tomou posição sobre o tema, através do porta-voz Eric Mamer, durante a conferência de imprensa diária do executivo comunitário. "Os desportos e as competições devem ser organizados de uma maneira que seja aberta a participantes, a clubes participantes, e que garanta a solidariedade dos níveis de topo aos mais baixos, para que todos tenham a oportunidade de participar”.

Sem se referirem directamente ao projecto de criação de uma Superliga europeia, por só terem tido conhecimento do plano através de relatos nos órgãos de comunicação, os porta-vozes da Comissão Europeia destacaram que “os princípios centrais deste modelo [o actual] são a autonomia, a abertura, a solidariedade e a interdependência das federações internacionais”. “A boa governação, baseada em regras claramente definidas, transparentes e de não-discriminação, é uma condição para a autonomia e a auto-regulação das organizações desportivas”, apontou a porta-voz com a pasta da Educação, Juventude, Desporto e Cultura, Sonya Gospodinova.