“Analisámos sempre Iglesias como se fosse um político tradicional e enganámo-nos”

José Pablo Ferrándiz diz que “quando passar algum tempo vai-se ver como Iglesias teve a capacidade política para modificar realmente Espanha”.

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Iglesias esteve 15 meses no Governo espanhol SUSANA VERA/Reuters

Pablo Iglesias abandonou o cargo de “número dois” do Governo de Pedro Sánchez para ser candidato do Unidas Podemos em Madrid. Ao contrário da presidente, Isabel Díaz Ayuso, do PP, “não beneficia eleitoralmente” da polarização e pode limitar-se a salvar o seu partido na comunidade, diz José Pablo Ferrándiz, sociólogo e investigador do centro de sondagens Metroscopia.

A diferença entre o que Pablo Iglesias disse que queria quando anunciou que deixaria a vice-presidência do Governo para ser candidato do Unidas Podemos à comunidade de Madrid e o que indicam as sondagens é grande. Vai ser um fracasso?
Em Madrid há a barreira dos 5% para entrar na assembleia regional e o que Pablo Iglesias fez foi salvar o Podemos do risco de não entrar, que era real. As outras duas questões que anunciou na sua mensagem, que queria ‘parar o fascismo, parar a direita’, e até liderar o bloco de esquerda, essas vão ficar muito longe. E a sua candidatura parece ter diminuído o risco de o Podemos ficar abaixo dos 5% mas nem isso é um dado adquirido. Vamos ver, ainda falta a campanha e ele é muito bom em campanha, sai-se muito bem nos debates.

A verdade é que aqui em Madrid a esquerda tem uma debilidade, que em grande medida vem da estratégia do Partido Socialista, que nunca apostou verdadeiramente em Madrid. Para além disso, o eleitorado socialista madrileno é diferente do que no resto de Espanha e para muitos a ideia de um governo regional com Pablo Iglesias como vice-presidente não entusiasma. A união da esquerda sempre foi muito mais difícil aqui do que noutras partes de Espanha.

Não parece muito para quem deixa o Governo.
O seu objectivo principal era salvar a marca Podemos da possibilidade de desaparecer de Madrid e das consequências que isso podia ter. Mas sim, é um êxito menor quando se pensa em alguém que deixou a vice-presidência do Governo de Espanha. Não sabemos se a decisão é uma antecipação da sua retirada da política. A verdade é que sempre analisámos Iglesias como se ele fosse um político tradicional e enganámo-nos, as suas decisões fogem à lógica a que estamos habituados. As pessoas diziam que tinha chegado à vice-presidência e ia ficar ali para sempre, e saiu. Quando anunciou que saía dizíamos que ia manter o lugar de deputado, e saiu. Dizíamos que de certeza ia pôr [a sua companheira e ministra da Igualdade] Irene Montero como candidata nacional, e não é isso que vai acontecer.

Ainda é um personagem que provoca muitas reacções adversas, polariza muito. Mas quando passar algum tempo vai-se ver como teve a capacidade política para modificar realmente este país. Estamos onde estamos em Espanha por causa deste partido chamado Podemos que surgiu em 2014.

A saída de Iglesias parece que acabou por naturalizar esta opção de Governo. Apesar de continuar a haver muita polarização, a coligação já surge como natural para os espanhóis?
Sim, depois de tantos gritos de ‘vêm aí os comunistas’… A verdade é que está demonstrado académica e empiricamente que os governos de coligação produzem melhores decisões. E a ideia de governos de coligação em Espanha deixou de ser estranha para as pessoas, numa altura em que parece claro que vão continuar a ser necessários.

Isto apesar do slogan de Isabel Díaz Ayuso, presidente da comunidade e candidata do PP, que era “socialismo ou liberdade” e passou a ser “comunismo ou liberdade”. Para ela, continua a fazer sentido apostar nesta clivagem.
Claro, esse slogan de ‘liberdade ou comunismo’ resulta fenomenalmente para a direita. Na prática, votam na mesma em Ayuso e o debate passa a ser sobre isso, evitando outros temas. O seu assessor, Miguel Ángel Rodriguez, que vem da época de [José María] Aznar, soube procurar o tipo de campanha mais adequada.

Dir-se-ia que o candidato à altura de Ayuso seria Iglesias.
É verdade que se contrapõem muito bem. Mas Iglesias tem outras dificuldades. Dentro na esquerda madrilena sempre houve uma diferença muito grande entre socialistas e comunistas, e agora entre o PSOE e o Unidas Podemos quase não há transferência de votos. Para além disso, há a existência do Más Madrid, a força política que criou [o fundador do Podemos Íñigo] Errejón. Iglesias não tem à esquerda a capacidade que Ayuso tem de concentrar o voto da direita, não consegue beneficiar eleitoralmente desta polarização.