Pelo 17 de abril e por todas as gerações, cá nos manteremos!

Alberto Martins nunca será apenas o que ousou pedir a palavra naquele 17 de abril de 1969. Mas o seu sentido de missão e a honra com que se dedicou à causa da democracia será uma característica do Homem que, inevitavelmente, o definirá sempre. Somos guardiões do que foi alcançado.

Na manhã de 17 de abril de 1969, há 52 anos, Coimbra acordou com a imponência dos edifícios neoclássicos prontos a ser inaugurados por um regime decadente. A magnificência das novas construções substituíra os escombros da Lusa Atenas, albergue de incontáveis gerações de académicos desalinhados e irreverentes, já habituadas a fintar o controlo de um Estado corporativista e a afastar um poder central incapaz de estender a sua soberania sobre as capas negras da academia.

Naquela manhã de 17 de abril de 1969, o projeto salazarista ultimado por Caetano operava mais uma ofensiva à resistência persistente dos jovens da Academia de Coimbra. No protocolo, para os estudantes nem palavra. De repente, um errático, um jovem presidente da Associação Académica de Coimbra, apoiado por milhares de outros erráticos, ousa inflamar a cerimónia estéril e abrir as portas do auditório do edifício das matemáticas da Universidade à comuna académica que sitiava o exterior. Alberto Martins acabara de estragar a encenação austera em que não havia sido convidado a participar. A crise académica de 69 iniciava o que já não era possível travar e que já era esperado há quase meio século: a queda do regime e a implementação de um Estado de direito democrático em Portugal.

Acredito que Alberto Martins se definiu naquela manhã. Como líder da resistência estudantil ousou pedir a palavra, cambiando o rumo do pré-estabelecido e da conveniência. A mudança que alcançou não é individual – ou não será apenas –, mas comunitária. Hoje acredito que Alberto Martins entregou à posterioridade o que ela mais necessitava, uma cidadela inatacável de direitos, liberdades e garantias, uma recusa de ser servil de um Estado que tudo incorporava e a exigência de ser-se Pessoa – Pessoa plena, repleta de convicções, ideais e projetos de vida, conflituantes com a intenção de mutilar uma geração com uma guerra criminosa, de remeter a maioria da população à pobreza e à ignorância extremas e de impedir a concretização de uma universidade democrática e humanista.

Alberto Martins nunca será apenas o que ousou pedir a palavra. Será certamente o cidadão, o familiar, o jurista, o político, o resistente e o líder. Mas o seu sentido de missão e a honra com que se dedicou à causa da democracia, não apenas dos estudantes, mas de todos os portugueses, nascidos e por nascer, será uma característica do Homem que, inevitavelmente, o definirá sempre.

Em honra à sua superação, naquela manhã de 17 de abril, devemos o constante estado de alerta a ofensivas contra aquele reduto inquestionável de direitos fundamentais de todos os cidadãos. Somos guardiões do que foi alcançado. Hoje, há quem tente convencer-nos que devemos baixar a guarda, que o que nos foi salvaguardado na Constituição é um entrave ao progresso, que devemos ser flexíveis e adaptarmo-nos aos novos tempos e costumes, que o que lá está consagrado é excessivamente pesado e que tal coisa já não se encontra em lado nenhum, que somos brandos contra quem infringe e exigentes contra a autoridade. Nestes momentos, reforcemos a democracia e defendamos o conquistado contra os saudosos de um tempo que já foi e que, felizmente, já não volta. Honremos Alberto Martins e aquele 17 de abril, sempre.

Por todas as gerações de portugueses antes de nós e por todas as que virão depois, cá nos manteremos!

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico