Salvini vai mesmo ser julgado por sequestro de 147 migrantes

Navio da ONG Open Arms esteve 18 dias ao largo de Lampedusa sem poder desembarcar. Ex-ministro do Interior italiano recusou a entrada a vários navios nos 14 meses em que esteve no poder.

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ORIETTA SCARDINO/EPA

Matteo Salvini, líder do partido de extrema-direita italiano Liga, vai ser julgado por acusações de sequestro pela sua decisão de impedir o desembarque de 147 migrantes resgatados no Mediterrâneo pela organização não-governamental espanhola Open Arms, em Agosto de 2019. O julgamento vai começar a 15 de Setembro em Palermo, a capital siciliana.

Salvini era na altura ministro do Interior e consolidou o seu protagonismo com políticas anti-refugiados, anti-imigração e anti-União Europeia, recusando sucessivamente o desembarque de navios com centenas de requerentes de asilo a bordo. Ao mesmo tempo, começavam a ser detidos e acusados em Itália os voluntários de ONG que se ocupam de resgates.

No caso do navio Open Arms (com o mesmo nome da ONG), o desembarque foi decidido pela procuradoria de Agrigento, na Sicília, quando este estava há 18 dias a um quilómetro da costa da ilha de Lampedusa, e numa altura em que Espanha já esperava os ocupantes em Maiorca. A procuradoria baseou a decisão numa inspecção feita a bordo onde se verificou que as pessoas bloqueadas se encontravam em graves condições físicas e mentais – várias tinham-se lançado ao mar nos dias anteriores, sendo resgatadas e levadas de novo para o navio.

Tudo isto aconteceu enquanto Salvini abandonava a coligação de Governo com o Movimento 5 Estrelas, querendo aproveitar a sua popularidade para provocar eleições antecipadas, o que acabou por não acontecer, seguindo-se uma nova coligação. Salvini esteve no Governo durante 14 meses.

“A defesa da Pátria é um dever sagrado dos cidadãos, artigo 52 da Constituição”, escreveu Salvini no Twitter, logo depois de ser divulgada a decisão de o levar a julgamento. “Vou a julgamento por isso, por defender o meu país? Vou de cabeça erguida, em vosso nome. Itália primeiro. Sempre”, escreveu ainda.

A acusação do ex-ministro era solicitada pelo procurador-geral e pelas 23 partes civis que se associaram ao processo, incluindo a Open Arms e diferentes associações que trabalham com requerentes de asilo e refugiados em Itália. Nove dos migrantes que estavam a bordo avançaram entretanto com uma acção civil contra Salvini.

“Estamos felizes por todas as pessoas que resgatámos em todos estes anos”, reagiu a ONG Open Arms também no Twitter.

“Violar um direito fundamental como o da protecção dos seres humanos no mar para fazer propaganda política é vergonhoso”, disse Òscar Camps, fundador da Open Arms, citado no jornal La Repubblica. “Que o julgamento seja uma oportunidade para julgar este pedaço de história europeia e voltar a colocar no centro os princípios democráticos.”

Salvini pode ser condenado a 15 anos de prisão e uma sentença definitiva deverá impedi-lo de se apresentar a votos ou de assumir cargos governamentais.