Rooftop Flores: pés na relva e Porto na mão

Não estamos habituados a ver o Porto assim. Lá em baixo, junto à Rua das Flores, Lindbergh brinca com Giacometti. Aqui no alto, junto à Vitória, descobre-se “um canto da cidade maravilhoso” com vista para o casario.

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Nelson Garrido
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Os pés descalços na relva e o sol a furar por entre as laranjeiras ao sabor da brisa que acompanha o Douro. À nossa mercê — à distância, mas muito perto —, centenas de telhados e os contornos do casario, a porta da Sé, a fachada da Igreja dos Grilos e o sino da Misericórdia, que parece apreciar o Porto ao nosso lado.

Abriu ontem e sempre ali esteve o Rooftop Flores (da rua e de laranjeira), um daqueles patamares do Porto que soa a socalco do Douro, com vistas deslumbrantes sobre a história da cidade e o privilégio de um enquadramento único para uma zona nobre de clarabóias a despontar do emaranhado de telhas. Não temos a vista desafogada e magnânima do The Yeatman, mas estamos do lado de cá, onde o Porto se sente, entre a atarefada Rua das Flores e a Rua da Vitória, esquecida entre as Taipas e os Caldeireiros. E terá sido precisamente essa a visão de Adrian Bridge, um apreciador de arte — que também está na paisagem —, quando descobriu este espaço mal aproveitado no último piso e nas traseiras do Museu e Igreja da Misericórdia do Porto (MMIPO). 

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“Viu aqui um potencial enorme”, sublinha Alexandre Gomes, responsável pelo espaço, referindo-se ao presidente executivo do Fladgate Partnership. “É um canto da cidade maravilhoso. Estamos habituados a vê-la de outra forma”.

O espaço de refeitório estava abandonado há cinco anos e é hoje um open space amplo e minimal, com janelas rasgadas e mesas de tampo de mármore recuperadas do vasto espólio do grupo. Dezasseis degraus de pedra acima, com acesso directo pela porta dos fundos que dá para a Rua da Vitória, apresenta-se à cidade um jardim panorâmico com laranjas a pender das árvores e os primeiros turistas, qual lengalenga, com os pauzinhos ao sol e um Porto tónico na mão.

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“Abriu ontem pela primeira vez ao público. Estava sem vida”, prossegue Alexandre, que não está a falar nem do Porto, nem da longa maratona de pandemia que esvaziou as ruas da cidade, deixando-as mais cinzentas. Daqui, os telhados mantêm-se num cor-de-laranja vivo.

Assim prosseguem de mãos dadas a Santa Casa da Misericórdia e a Taylor's, cada um do seu lado do rio. Depois de uma primeira parceria, a mostra Pablo Picasso. Suite Vollard, prelúdio de Guernica que em 2019 foi revelada no Palácio das Artes, é celebrada a arte de Alberto Giacometti e de Peter Lindbergh (Alberto Giacometti – Peter Lindbergh. Capturar o Invisível), com o fotógrafo alemão (falecido em Setembro de 2019) a reinterpretar as esculturas do suíço, aproveitando a luz que ao longo do dia percorre as galerias do Museu da Misericórdia, edifício que foi sede da instituição a partir de meados do século XVI e que Lindbergh ainda visitou.

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É uma paragem obrigatória ou um desvio inspirador para quem entrar pela rua das Flores (número 15) e chegar ao rooftop através das escadas ou do elevador do museu. Na compra de um bilhete para a exposição, os visitantes terão direito a um Taylor’s. Lá no alto, à sombra das laranjeiras, pés na relva, copo na mão, espreguiçamo-nos, esticamos o dia. O Porto não foge.