A cavala é saborosa, barata e pode prevenir a doença de Alzheimer

A ciência pode desmanchar prazeres à mesa, mas, neste caso, é amiga. Por ser rica em ómega 3 e vitamina B12, a cavala e outros pequenos peixes pelágicos ajudam a prevenir doenças neurodegenerativas. Direccionada para a cavala, esta é a tese de um projecto de investigação financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia que decorre em Portugal e que se chama NewFood4Thought .

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José Fernandes

Cerca de 50% do peso do cérebro humano é formado for lípidos, sendo que uma parte considerável destes é o ácido docosa-hexaenóico (conhecido como DHA), que é um dos ácidos gordos do tipo ómega-3, fundamentais à vida humana e que chegam até nós essencialmente através da dieta alimentar.

Estes lípidos são determinantes para o bom funcionamento do cérebro, em particular no que diz respeito à aprendizagem contínua e à memória, pelo que  avançam várias investigações  reduzidos níveis de DHA estarão associados ao declínio cognitivo à medida que envelhecemos e – mais importante – à progressão de patologias neurodegenerativas, das quais se destacam a doença de Alzheimer ou a de Parkinson.

Ora, como a cavala é um peixe muito rico em DHA e vitamina B12 (que potencia o mecanismo de acção do DHA) e chega aos consumidores com um preço muito baixo por comparação com outras espécies, a equipa liderada por Narcisa Bandarra, numa parceria entre o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, criou o projecto NewFood4Thought, que tem três finalidades: mostrar a variação sazonal de DHA na cavala ao longo do ano; perceber que quantidades de DHA e vitamina B12 são necessárias para prevenir as doenças neurodegerativas; e criar alimentos com propriedades neuroprotectoras a partir de cavala, com a junção de quinoa.

nelson garrido
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“Já existem estudos científicos que relacionam a importância de uma dieta rica em DHA como forma de impedir a progressão dos problemas neurológicos que ocorrem à medida que envelhecemos. O que pretendemos é, a partir de diferentes ensaios laboratoriais  alguns com roedores afectados pela doença de Alzheimer  perceber que quantidades de cavala devemos comer por semana”, refere à Fugas Narcisa Bandarra, especialista em valorização dos produtos da pesca e da aquacultura.

A partir dos resultados do estudo, que deverão ficar concluídos em Setembro de 2022, a equipa do NewFood4Thought vai desenvolver aquilo que se chama em linguagem técnica um nutracêutico  ou seja, um alimento com propriedades neuroprotectoras  à base de cavala que pode ter a forma de hambúrguer, croquete, terrina, o que for.

Claro está que o consumo puro e simples de cavala será eficaz para os objectivos pretendidos, mas a junção da quinoa aparece aqui como estratégia para reforçar a ingestão de vitamina B9, igualmente importante para a manutenção da função cognitiva. Resta saber que quantidades estarão em causa.

A investigação centra-se na cavala pela sua riqueza conjunta de DHA e vitamina B12, que existe em abundância nesta espécie, mas Narcisa Bandarra refere que todos os pequenos pelágicos (carapaus, sardinhas e sardas) são ricos em DHA e que, de resto, com a junção de outro ácido gordo  o ácido eicosapentaenóico, ou EPA – são ingredientes fundamentais para a prevenção das doenças cardiovasculares.

A cavala surge em destaque por ser um peixe barato e sobre o qual existem, infelizmente, muitos preconceitos. Peixe mole, peixe de sabor intenso, peixe de pescador e, enfim, peixe não nobre.

Ora, foi justamente por causa de tais preconceitos que pedimos a três chefs e a uma investigadora na área da alimentação que criassem pratos a partir de cavala ou sarda. E fáceis de executar em casa. Não nos anteciparemos à equipa da NewFood4Thougt, mas se quiserem inspirar-se nas criações apresentadas nestas páginas, os seus autores não se importarão. Tudo em nome de uma dieta saudável e da promoção de um peixe barato, saboroso, mas mal-amado.