Facebook alertado para travar Instagram para crianças

Mais de três dezenas de investigadores e associações de defesa das crianças e privacidade acusam Facebook de querer “monopolizar e monetizar a atenção das crianças” com uma nova versão do Instagram para menores de 13 anos e pedem à empresa que pare o projecto.

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O Facebook quer criar uma rede social para as crianças navegarem em segurança Getty Images/Elva Etienne

​Dezenas de associações de protecção das crianças, defesa da privacidade e investigadores em todo o mundo estão a pedir à empresa detentora do Facebook para abandonar os planos de criar uma versão do Instagram para menores de 13 anos. Em causa estão preocupações com a saúde mental, bullying e abuso sexual de crianças online.

Os receios foram enviados por escrito esta quinta-feira numa carta endereçada a Mark Zuckerberg. Foi redigida pela Associação para uma Infância livre de Publicidade (CCFC, na sigla inglesa), nos Estados Unidos, e assinada por mais de 30 organizações em todo o mundo.

“O longo historial do Facebook de abuso e colocação de jovens em risco torna a empresa especialmente inadequada para ter a custódia de um sítio de partilha de fotos e de mensagens para crianças”, lê-se na carta da CCFC, que acusa a rede social de querer “monopolizar e monetizar a atenção das crianças”. 

O novo projecto do Instagram, avançado pelo Buzzfeed em Março e confirmado por Mark Zuckerberg, surgiu com a missão de dar às crianças uma rede social onde possam navegar em segurança e sem anúncios. Parte do objectivo é impedir as crianças de mentirem sobre a idade para aceder a serviços como o Instagram. A iniciativa segue várias versões de redes sociais e sistemas de mensagens populares que foram adaptados para crianças nos últimos cinco anos — é o caso do Messenger Kids, também do Facebook, e do YouTube Kids, da Google. A primeira não está disponível na Europa.

Em declarações ao Congresso norte-americano, Mark Zuckerberg explicou que a nova versão está numa fase inicial e que poderá ser controlada pelos encarregados de educação. Para a CCFC, não é o suficiente.

“Concordamos que a versão actual do Instagram não é segura para crianças menores de 13 anos e que algo deve ser feito para proteger os milhões de crianças que mentiram sobre a sua idade”, reconhece a CCFC. “Contudo, lançar uma versão do Instagram para crianças com menos de 13 anos não é o melhor remédio e colocaria utilizadores jovens em grande risco.”

A carta da CCFC refere vários estudos que mostram que o uso excessivo dos ecrãs e das redes sociais está associado a uma série de riscos para as crianças e adolescentes, incluindo a obesidade, menor bem-estar psicológico, diminuição da felicidade e diminuição da qualidade do sono.

Um dos casos mais notórios ocorreu em 2019, quando uma jovem de 16 anos da Malásia se suicidou com base na resposta de um inquérito publicado no Instagram. Os pais da jovem britânica Molly Russell, que se suicidou em 2017, quando tinha 14 anos, também culpam a app do Facebook pela decisão da filha acabar com a vida devido à exposição contínua de imagens sobre suicídio no Instagram. O caso britânico foi um dos impulsionadores da decisão do Facebook de começar a desfocar imagens publicadas sobre actos de automutilação.

“Segundo o testemunho [de Mark Zuckerberg] no Congresso, o Instagram para crianças está numa fase inicial de planeamento. Pedimos que abandone esses planos”, sublinha a equipa da CCFC que também criou uma petição online que pode ser assinada por qualquer pessoa. 

O PÚBLICO contactou o Facebook a propósito da carta aberta da CCFC, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo. Em declarações ao jornal britânico The Telegraph, um porta-voz do Facebook nota que a versão do Instagram para menores de 13 anos “não terá anúncios” e será desenvolvida em parceria com especialistas em desenvolvimento infantil, segurança, saúde mental e privacidade.

O Facebook ainda não conseguiu lançar o Messenger Kids, uma app anunciada em 2017 para crianças dos seis aos 12 anos falarem com os amigos e familiares, na Europa. Em causa estão preocupações com a privacidade dos mais novos.