Xanana Gusmão filmado a esbofetear familiares de vítima de covid-19

O antigo Presidente e primeiro-ministro de Timor-Leste tem dormido à porta de um centro de isolamento e exige a entrega do corpo aos familiares, contra a determinação das autoridades de saúde.

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Xanana Gusmão tem dormido à porta do centro de isolamento de Vera Cruz, em Díli ANTONIO SAMPAIO/LUSA

O líder histórico timorense, Xanana Gusmão, foi filmado a esbofetear duas pessoas na rua, no domingo, e tem dormido ao relento num protesto contra o que diz ser as mentiras do Governo sobre a gravidade da pandemia de covid-19 no país.

O antigo Presidente timorense exige a entrega do corpo de uma vítima de covid-19 à respectiva família, contra a decisão das autoridades de saúde, e o seu comportamento público está a preocupar os dirigentes do país.

Xanana Gusmão está desde domingo em protesto diante do centro de isolamento de Vera Cruz, em Díli, a exigir a entrega do corpo de Armindo Borges, de 47 anos, à sua família. O antigo líder timorense não acredita que Borges tenha morrido com covid-19, e sugere que a notícia foi lançada pelo Governo para enganar a população.

“Para convencer o povo a acreditar na covid-19, o Governo tem de trabalhar bem, senão o povo vai dizer que lhe mentimos”, disse Xanana Gusmão, segundo uma notícia publicada no jornal britânico The Guardian e assinada pelo jornalista timorense Raimundos Oki.

“Eu também acompanho o desenvolvimento da covid-19 no mundo, mas o que está a acontecer aqui deixa-me descrente”, disse o líder histórico timorense.

Morte no domingo

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, Timor-Leste registou até ao momento 1074 casos de infecção com o vírus SARS-CoV-2 e duas mortes, com os números a aumentarem de forma significativa desde Março.

O protesto de Xanana Gusmão começou ainda no domingo, pouco depois da morte de Armindo Borges no hospital de Díli.

A filha de Borges, Lourdes de Jesus, disse ao Guardian que o pai sofreu um acidente vascular cerebral no domingo, por volta das 18h, e foi levado para o hospital numa ambulância. Já no hospital, foi submetido a um teste à covid-19, cujo resultado foi positivo, e morreu na sala de isolamento poucas horas depois.

Xanana Gusmão exige que o corpo de Borges seja entregue à família para o cumprimento dos rituais tradicionais, mas as autoridades de saúde querem que o funeral seja feito em segurança.

A presença de Gusmão no centro de isolamento de Vera Cruz atraiu centenas de pessoas. O antigo líder timorense tem dormido à porta do centro, juntamente com familiares de Armindo Borges, e é visto a circular por entre a multidão sem máscara.

O vídeo que circula na Internet foi gravado no domingo e mostra Xanana Gusmão a esbofetear um filho e uma irmã de Armindo Borges. De acordo com a Rádio e Televisão de Timor-Leste (RTTL), o histórico líder timorense disse que esbofeteou os familiares de Borges por achar que as suas formas de protesto mais iradas são contraproducentes e podem dificultar a entrega do corpo à família.

“Não gritem aqui. Por favor, não façam barulho. O teu pai morreu, não deves gritar”, disse Xanana Gusmão ao filho de Armindo Borges, segundo a RTTL.

Apoio entre os jovens

Na segunda-feira, vários dirigentes timorenses tentaram dissuadir Xanana Gusmão, incluindo a ministra da Saúde, Odete Belo; o número dois da Sala de Situação do Centro Integrado da Gestão de Crise (CIGC), Aluk Miranda; e outro dos coordenadores, o comodoro Pedro Klamar Fuik.

Todos tentaram argumentar com a necessidade de se respeitar o protocolo definido para mortes de pessoas infectadas, mas Xanana Gusmão rejeitou os argumentos, insistindo que a postura das autoridades não faz sentido e que o homem morreu de outras doenças.

A dada altura, Xanana Gusmão chegou mesmo a dizer que ia “dizer ao povo que, se estiverem doentes, não devem ir ao hospital porque se forem, vão ser tratados como covid-19 imediatamente”.

“Vou ficar aqui até a família poder levar o corpo”, insistiu.

Xanana Gusmão esteve no local rodeado de vários apoiantes mais próximos, incluindo deputados e dirigentes do seu partido, o Congresso Nacional da Reconstrução Timorense, e elementos da segurança da força política.

Nos dois acessos à rua onde está o centro de Vera Cruz e nas imediações do centro em si, centenas de polícias mantiveram um apertado cordão de segurança, travando grupos de centenas de manifestantes que, ao início da manhã de segunda-feira, se juntaram em apoio a Xanana Gusmão.

Entre os apoiantes, muitos deles jovens, ouviram-se várias críticas não apenas à questão da covid-19 mas, particularmente, à situação socioeconómica difícil em que vive a população de Timor-Leste, em virtude das medidas implementadas para responder à covid-19.

“Claro que vai haver resistência, mas vamos tentar esclarecer a situação e, em último caso, podemos ser obrigados a tomar medidas de força em relação a esta questão”, disse o brigadeiro-general João Miranda ‘Aluk’.

Apelo à confiança

O coordenador da task force para a prevenção e mitigação da covid-19, Rui Araújo, disse à Lusa que Armindo Borges entrou no Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV) com um quadro grave, com tensão elevada, respiração dificultada e hemorragia, tendo-lhe sido feito o teste PCR à covid-19.

“O resultado foi positivo com um nível activo elevado de 25.1. O paciente foi transportado para Vera Cruz e foram recolhidas análises a três pessoas da família, das quais duas tiveram resultados positivos: ou seja, três dos quatro habitantes da casa deram resultado positivo”, afirmou.

Rui Araújo mostrou-se sensibilizado com a importância dos rituais, usos e costumes, mas recordou que o vírus “está a propagar-se desenfreadamente, não só em Díli, mas noutras partes do território”, e que todos devem cumprir as regras de saúde pública.

Na sequência da polémica, o primeiro-ministro de Timor-Leste encorajou os médicos “a continuarem a trabalhar, a não ficarem tristes e nem perderem a esperança porque o Governo e o Estado” estão ao lado dos profissionais de saúde.

Em comunicado, Taur Matan Ruak referiu que “esta situação está a criar sentimentos negativos de algumas pessoas contra os profissionais de saúde, sendo que algumas pessoas apedrejaram ambulâncias e não têm confiança nos médicos”, acrescentando que “esta atitude não ajuda a combater a doença” no país.