Mais portugueses dizem ser difícil cumprir as medidas contra a covid-19. Confiança na vacina mantém-se

Para, pelo menos, 41,5% dos inquiridos pela Escola Nacional de Saúde Pública está a ser “difícil” ou “muito difícil” evitar visitar amigos e familiares, mais 7,1% relativamente à quinzena anterior. E há uma maior dificuldade em “manter a adopção de medidas de protecção”. Conclusões foram apresentadas esta terça-feira na sede do Infarmed.

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DIOGO VENTURA

Num mês, muito parece ter mudado nos comportamentos dos portugueses: 7,5% dos portugueses dizem agora ter estado num grupo de dez ou mais pessoas nas últimas semanas —​ um aumento face aos 4,9% registados no último mês. Estas foram as conclusões apresentadas por Carla Nunes, da Escola Nacional de Saúde Pública, durante a reunião de peritos que aconteceu esta terça-feira na sede do Infarmed, em Lisboa. Sabe-se, ainda, que a confiança na vacina parece não se ter alterado e que a maioria dos inquiridos está disposta a tomá-la quando chegar a altura. 

Olhando para os comportamentos individuais, este inquérito registou uma alteração na percepção da facilidade de adopção de medidas contra a covid-19, com um maior número de portugueses a achar que é muito difícil ou difícil cumprir medidas como o uso de máscara, teletrabalho, ficar em casa e evitar visitas — com 41,5% dos inquiridos a dizer ser “difícil” ou “muito difícil” evitar visitar amigos e familiares, mais 7,1% relativamente à quinzena anterior.

Os valores reportados acerca da utilização da máscara sofreram também um aumento no mesmo período, com 14,5% a apontar “dificuldade” ou “muita dificuldade” na adopção desta medida, mais 7% face ao período homólogo. Carla Nunes destacou também o aumento de 7,7% das pessoas que afirmam ter sido “difícil” ou “muito difícil” manter o teletrabalho, situando-se nos 42,4%.

“Embora estes dados não revelem alterações drásticas no padrão de resposta, sugerem, ainda assim, uma maior dificuldade dos respondentes em manter a adopção de medidas de protecção num período em que estas são particularmente importantes, já que estarão a aumentar os contactos e as circunstâncias em que estão em risco”, referem os investigadores.

No que toca a outros parâmetros em estudo, pouco mudou. A percepção do estado de saúde mantém-se igual, assim como a quantidade de portugueses que afirmaram sentir-se agitados, ansiosos ou tristes devido ao isolamento social: um em cada quatro disse sentir-se assim. Também nada mudou na confiança dos serviços de saúde, com valores bastante elevados, e na percepção das medidas do Governo, consideradas pouco ou nada adequadas.

Confiança na vacina mantém-se

Quanto à confiança na vacina, não parece “ter havido uma perda significativa” na percepção dos portugueses. Anteriormente, o inquérito tinha sido feito com apenas uma pergunta para avaliar a segurança e eficácia; agora, esses dois parâmetros foram divididos. E conclui-se que 16,9% dos portugueses se mostram muito confiantes em relação à segurança e 7,7% à eficácia; 70%,8 mostram-se confiantes em relação à segurança e 79,8% à eficácia.

Em Março, 91% das pessoas mostraram-se muito confiantes em relação à segurança e eficácia.

Sobre a intenção de toma da vacina, percebe-se que já 10% dos inquiridos tinham tomado a vacina e que, entre os que não tinham tomado, 7,8% disseram que não a iriam tomar (um aumento face ao 1,7% registado em Março). Contudo, 82,2% afirmam que a vão tomar. “Houve alterações nas intenções”, mas não parece haver indícios de problemas em relação ao cumprimento do plano de vacinação, afirma Carla Nunes.

O perfil das pessoas que se mostram mais desconfiadas em relação à vacina são pessoas mais novas, que perderam parte ou totalidade do rendimento, que já não tomavam a vacina contra a gripe, com baixa confiança nos serviços de saúde e nas medidas do Governo e que consideram a informação sobre a vacina pouco clara ou inconsistente. Para os investigadores, é importante desenhar intervenções de comunicação que vão ao encontro deste perfil.

Há pelo menos 21 clusters de risco e incidência, a maior parte no Alentejo e Algarve

Carla Nunes focou-se ainda na evolução das áreas mais críticas quanto à covid-19 no espaço e no tempo. Esta análise teve em conta a incidência e os riscos relativos, ou seja, o rácio entre casos observados e esperados, dada a situação nessa semana no país e considerando a vizinhança do concelho em estudo.

A especialista apresentou os dados de todas as semanas da pandemia até ao momento e percebeu-se que os concelhos pintados com os tons mais escuros (ou seja, que tinham uma posição mais baixa, com valores elevados de incidência ou de risco relativo) eram os das zonas metropolitanas de Lisboa e Porto, Nordeste Transmontano e algumas zonas do Alentejo.

Ao longo do tempo, notam-se algumas diferenças: na primeira vaga, era no Norte (litoral e interior), Grande Lisboa e em partes do Alentejo e do Algarve que o mapa se pintava de cores mais escuras. Durante o período mais gravoso da pandemia, por volta de Janeiro, notou-se uma maior “mistura de diferentes ordenações” e uma “menor continuidade espacial”. A “vizinhança” acabou por ser mais aleatória, sem padrões homogéneos de cor. Agora, temos todo o litoral e, especialmente, as regiões do Sul pintados com as cores mais escuras.

Carla Nunes afirma que não existe uma relação clara entre incidência e densidade populacional. Actualmente, há maiores concentrações e “vizinhanças mais homogéneas” em algumas áreas do país. Olhando para o tempo e não para o espaço, notam-se, também, períodos com maior dispersão e oscilação, assim como com incidências mais altas.

Na definição das áreas espaciais mais críticas ao longo das últimas semanas notam-se alguns clusters espaciais. Entre 29 de Março e 4 de Abril, por exemplo, registaram-se valores mais baixos (ou seja, maior risco ou incidência) em Vila Franca de Xira e Rio Maior. De 5 a 11 de Abril, os dados mais recentes, percebe-se a existência de 21 clusters especialmente no Alentejo e no Algarve.

“Focando-nos nas ultimas cinco semanas, há clusters com riscos muito elevados e alguns com consistência temporal”, afirma Carla Nunes. Há áreas críticas identificadas onde interessa identificar a grandeza (de riscos relativos, incidência, tendência e número de casos), mas também de continuidade temporal.

“É urgente, com a transmissão rápida que existe, e independentemente da consistência temporal”, definir estratégias especificas de actuação. E, também, perceber a causa dos casos, usando sempre outro tipo de informação, a nível local, para distinguir os diversos clusters.