Empatia

Não é por acaso que Suzana Garcia concorre à Amadora. O município que há algumas décadas era conhecido por ser maioritariamente constituído por um operariado unido, reivindicativo e de imenso potencial revolucionário foi sendo mais massacrado por todas as crises e admitindo a construção de barreiras e muros entre explorados e muito explorados, remediados e miseráveis.

Começo por contar uma história. Num bairro onde trabalho, uma mulher, cinquentenária, foi novamente presa por terem sido descobertas em sua casa inúmeras doses de várias drogas. A Dona X passou mais de metade da sua vida em Portugal habitando, desde sempre, naquilo que quando chegou se chamava bairro de lata. Tendo iniciado a sua vida de trabalho no sector das limpezas, acumulou, durante muitos anos, vínculos de trabalho precário e mal pago. Algumas vezes, de tão precário que era o vínculo, nem lhe pagaram o trabalho realizado. Até que lhe chegou a oportunidade de ser traficante de droga. Ganhou uma estabilidade financeira que lhe passou a permitir alimentar decentemente os seus filhos e sonhar em guardar algum dinheiro para se reformar e construir uma casa na sua terra natal. Reconhecendo a legitimidade da sua prisão, não posso deixar de sentir empatia pelo percurso de vida desta mulher. Nessa medida, se chamado a ter um papel na sua reabilitação, procuraria encontrar, com ela e a sua família, um caminho alternativo de modo a que se cumpram os mais básicos direitos humanos (casa digna e comida para si e para os seus) e o seu sonho (reforma e casa na sua terra), sem que fosse necessário regressar ao tráfico.

A mútua empatia é fundamental neste processo. A capacidade de nos conseguirmos ver na condição do outro é uma das características que nos faz agir como seres humanos. Aliás, a forma como o racismo e o nazismo se procuram impor é sempre lançando anátemas sobre os outros de modo a quebrar a possibilidade de se gerar empatia. Dos judeus diziam que roubavam e procuravam conquistar o poder hegemónico mundial, dos ciganos diziam ser uma ameaça à superior raça ariana, dos comunistas diziam que comiam criancinhas ao pequeno-almoço. Mas esta estratégia não se perdeu no tempo. Ainda hoje, das pessoas que chegam em condições de miséria às nossas costas pedindo auxílio, não se quer que as vejamos como refugiados que fogem da guerra, da miséria e de uma vida sem futuro, mas como usurpadores com os seus “iPhones” e criminosos em potência que colocarão em risco a nossa segurança.

Saltemos para a nossa realidade político-partidária e para o anúncio de Suzana Garcia como candidata à Câmara Municipal da Amadora com o apoio do PSD e, ainda por formalizar, do CDS-PP. Garcia é um dos principais rostos mediáticos na tentativa de destruição dos elos de empatia entre seres humanos e, como se pode ler na sua primeira entrevista como candidata (Expresso), uma peça fundamental na legitimação do discurso de ódio da extrema-direita em Portugal. Mas não é por acaso que Garcia concorre à Amadora. O município que há algumas décadas era conhecido por ser maioritariamente constituído por um operariado unido, reivindicativo e de imenso potencial revolucionário foi sendo mais massacrado por todas as crises e admitindo a construção de barreiras e muros entre explorados e muito explorados, remediados e miseráveis.

A construção do ódio não será uma novidade que Suzana Garcia transportará para a Amadora, antes, encontrará terreno fértil e bem preparado pela actual presidente da Câmara Municipal da Amadora, Carla Tavares, eleita pelo PS. Nos seus mandatos como presidente, foram demolidas casas deixando os destroços no local de forma deliberada, não apenas para ostentação de poder mas sobretudo para criar piores condições sanitárias aos que restavam. Nos seus mandatos como presidente, pagou-se a famílias para abandonarem o concelho. Nos seus mandatos como presidente, fez-se da vídeovigilância política municipal de segurança ignorando-se a raiz dos problemas. Nos seus mandatos como presidente, viu-se todos os agentes da esquadra de Alfragide serem acusados de mentir e, a maioria, de terem comportamentos racistas sem que Carla Tavares manifestasse a mínima solidariedade pública para com as vítimas, seus munícipes.

Regressando à história inicial, não é difícil de prever que quando a Dona X sair da prisão retome o seu lugar no tráfico e que, mais dia, menos dia, volte a ser presa – antes de conseguir fazer o seu pé-de-meia para a reforma. Ser-nos-ia muito mais económico e útil para todos que a Dona X conseguisse uma casa, um trabalho com direitos e uma reforma que, muito provavelmente, daria para viver bem os seus últimos dias na sua terra. Perderia o sistema de tráfico de droga, que precisa destes peões para garantir uma boa distribuição, e o discurso de ódio que também depende da manutenção do sistema de tráfico.

A empatia, enquanto capacidade de ouvir e de nos colocarmos no lugar de outro ser humano (não confundir com a estetização da miséria), é decisiva para conseguir construir estratégias de emancipação e de real transformação política.