Bispos portugueses discutem papel das mulheres na Igreja

Dar co-responsabilidade e nova vitalidade ao papel das mulheres na Igreja é um dos objectivos do encontro que decorre até quinta-feira em Fátima. O papel dos diáconos permanentes também vai estar em discussão

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O bispo D. José Ornelas preside ao encontro dos bispos portugueses Adriano Miranda (arquivo)

O diaconado permanente e a maior presença das mulheres nas funções da Igreja Católica vão estar em cima da mesa, no encontro que reúne os bispos portugueses, em Fátima, a partir desta segunda-feira. Até ao próximo dia 15, os representantes das diferentes dioceses vão discutir formas de revitalizar o papel das mulheres e dos diáconos permanentes, naquilo que se espera que traduza, como enfatizou no arranque dos trabalhos o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. José Ornelas, “um modo renovado de pensar o ser da Igreja”.

Quanto às mulheres, está em causa a recente decisão do Papa Francisco de alterar o Código de Direito Canónico para oficializar a possibilidade de as mulheres desempenharem as funções de leigas e acólitas, isto é, de fazerem leituras, ajudarem no altar e distribuírem a comunhão – algo que, na prática, vêm fazendo há décadas, sem qualquer mandato institucional, contudo.

Com este motu próprio (decreto papal) que vigora desde meados de Janeiro, o Papa quer declaradamente abrir caminho à maior participação das mulheres nas funções da Igreja, embora continue a vedar-lhes o acesso ao sacerdócio, uma possibilidade amplamente discutida no sínodo dos bispos sobre a Amazónia, em Outubro de 2019. Apesar disso, e na sequência de uma promessa feita nessa altura, Francisco incumbiu há um ano uma nova comissão de estudar o diaconado feminino na Igreja Católica. Ao grupo, presidido pelo cardeal Giuseppe Petrocchi, e onde se integra a biblista francesa Anne-Marie Pelletier, a primeira mulher a receber o prémio Ratzinger, considerado o Nobel da Teologia, compete agora avaliar se as mulheres estão também em condições de aceder ao diaconado, a partir do estudo do verdadeiro papel das diaconisas no passado.

Em Portugal, são várias as dioceses em que, à falta de padres, as mulheres são chamadas a presidir à “celebração da palavra”, em muito igual a uma missa, mas sem homilia nem a consagração do pão e do vinho (feita previamente, por um sacerdote). Ao PÚBLICO, o presidente da CEP, D. José Ornelas, declarou há menos de um ano, e em sintonia com a linha de actuação do Papa Francisco, que a Igreja tem de “discernir e ver” a questão da ordenação das mulheres. “Não a tiro de cima da mesa”, disse, na mesma entrevista em que admitiu a discussão em torno do fim do celibato obrigatório dos padres, e apontou a necessidade de encontrar novos caminhos para uma maior presença feminina nos órgãos da Igreja.

Quanto ao diaconado permanente, a discussão visa “revitalizar” aquele que é um ministério ordenado, “de grande importância desde os inícios da Igreja e do qual se espera uma nova vitalidade e articulação cm outros serviços eclesiais”, como considerou D. José Ornelas, na sua intervenção de hoje.

Os diáconos permanentes, cuja função foi restaurada durante o Concílio Vaticano II, mais concretamente em 1967 pelo papa Paulo VI, exercem um ministério ordenado com o primeiro sacramento da ordem, mas podem ser casados e ter filhos. Fazem baptismos, presidem a casamentos e a funerais. Não podem é dar a santa unção, ouvir os fiéis em confissão nem chamar missa à missa que efectivamente celebram. Para serem reconhecidos enquanto tal pela Igreja, têm de ter mais de 35 anos, uma vida estável na comunidade em que se inserem e passar por uma formação que os habilita a exercer aquelas funções. Em Janeiro, e porque a falta de sacerdotes se vem tornado cada vez mais evidente (tanto que existem no país cerca de 400 diáconos que os substituem nalgumas funções), a Comissão Episcopal Vocações e Ministérios propôs-se relançar o papel dos diáconos, tendo começado então a preparar o documento que vai esta semana ser discutido entre os bispos.