O toque

Um médico cuja arrogância era maior do que a sua altura chega até mim com os seus 20 alunos e não me diz ‘boa noite’. Explica aos alunos que está ali uma mulher sem dilatação e todos me olham como a um dinossauro no Museu de História Natural.

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"Ser mãe é o maior milagre deste mundo" Mag Rodrigues

Ter filhos é uma coisa muito séria: um compromisso que nunca mais nos vai fazer olhar para a vida da mesma forma.

Lembro-me muito bem das palavras do Pedro Paixão naquele telefone fixo onde eu me curvava para pegar no auscultador e ele dizia. “Inês Maria?” E eu, só pelo prazer, interrogava: Paixão? E ele dizia sempre: “Até ao fim.” Era uma brincadeira de palavras e de respeito mútuo. Falávamos de tudo e do mais: da angústia do dia ou dos amigos perdidos. De sermos filhos, de metermos a dor ao barulho na existência e de nunca podermos dar nenhum desgosto aos nossos pais. Eu desligava a chamada e ficava a pensar no que eu achava que nunca me iria acontecer. Até que aconteceu: ser mãe.

Uma noite cheguei ao hospital levando na barriga toda a minha vulnerabilidade e logo na recepção fui mal recebida. Podia andar aqui às voltas com um eufemismo escolhido mas não me vou poupar. Era um médico que me tratou com desprezo e eu achei estranho que alguém recebesse uma pessoa numa circunstância delicada, sem delicadeza. Lembro-me bem dele ali naquele torniquete que me irá catapultar para uma aventura que não se esquece. Nunca esqueci. Estará comigo até ao fim.

Lembrei-me de tudo isto nestes dias de visita à minha médica que me disse: “Se calhar foi por isso que nunca mais teve filhos, não foi?”. Não tenho resposta para isso, mas tenho arrependimento. Teria mais filhos se voltasse atrás. Com delicadeza.

Depois da misoginia do primeiro torniquete entrei num túnel de dores várias, a maior acho que tem nome: chama-se desrespeito. Uma mulher num estado de vulnerabilidade total deixa de ter nome e passa a ser um corpo aonde qualquer um chega para medir dilatações sem licença. Sem um ‘boa noite’. Sem um sorriso. Sem nada a não ser uma ideia de fazer parte de uma sequência onde ninguém está capaz de contestar a ordem anormal das coisas.

Um médico cuja arrogância era maior do que a sua altura chega até mim com os seus 20 alunos e não me diz ‘boa noite’. Explica aos alunos que está ali uma mulher sem dilatação e todos me olham como a um dinossauro no Museu de História Natural. Ri-me com isto agora. Na altura engoli a dor do desrespeito. Seriam muitos soluços repetidos até à náusea. Minha e de muitas mulheres.

A minha vulnerabilidade é irrelevante para o caso. Doze horas depois, com uma máscara de oxigénio, entrei numa sala de partos onde ouvi uma mulher, médica, dizer: “Vamos então para a cesariana da hora do almoço.” E fomos.

A minha filha nasceu linda e tão perfeita que era motivo de conversa na maternidade. Não me lembro se continuou a ser quando me foi retirada, eu e ela com uma infecção provocada pelas dezenas de “toques” a que fomos submetidas. Mais valia uma infecção generalizada do que comprometer as metas da instituição numa cesariana que punha em causa o erário público.

Lembro-me demasiado bem do momento em que me chamaram e depositei a minha filha num corredor muito longe do lugar onde eu continuaria. Lembro-me de voltar sozinha ao meu quarto onde estavam mais sete mulheres e os seus bebés e chorar baixinho sabendo, ainda assim, que me ouviriam.

Lembro-me de ver o tal homem, médico, cuja arrogância era maior do que a sua altura, voltar ali, à enfermaria e tratar as mulheres como se fossem recipientes. É difícil esquecer isto. Como a mulher negra que chorava muito durante a noite e eu (sempre acordada) ouvir a enfermeira que estava de serviço durante a madrugada gritar-lhe: “Está a gemer porquê?” Depois vinha até mim e enfiava-me sem dó o antibiótico na veia. Não havia empatia nem misericórdia nem nada.

Fiquei separada da minha filha dez dias, mas sobretudo fiquei separada da bondade e daquilo que nos valida como humanos: a empatia, a ajuda, o consolo que não precisa de reconhecimento.

Não cabe neste espaço aquilo que vi e ouvi: o culto de um sadismo como se fizesse parte de uma academia para sairmos dali mais fortes e capazes. Não, isso não aconteceu.

Um dia voltei a ter a minha filha nos meus braços, conservei as minhas dores e percebi que o mundo ainda é muito injusto com as mulheres até numa grande cidade europeia onde as pessoas nos parecem civilizadas e dignas.

A dignidade é uma coisa relativa, é verdade.

Um dia passei por uma conhecida que me disse: “Se os homens parissem, o mundo já era um lugar melhor.” Nunca mais me consegui esquecer disto.

Ter um filho é um compromisso muito sério. Ensinar o amor e a empatia também.

Hesitei em escrever esta crónica, tantos anos depois, mas sei, infelizmente, que demasiadas mulheres se vão rever nesta experiência.

Ser mãe é o maior milagre deste mundo. Lembro-me de um dia olhar para o céu e para a beleza das nuvens e ter concluído: quero que a minha filha veja tudo isto.

E ela vê.