Portugueses não mostram desconfiança face à vacina da AstraZeneca, diz coordenador da task force

“Temos de ter muito cuidado em não entrar numa curva de histeria que poderia prejudicar processo de vacinação”, avisa o vice-almirante Gouveia e Melo.

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Vice-almirante Gouveia e Melo: "Há cerca de oito milhões de portugueses que querem receber a vacina" Rui Gaudêncio

A mais recente leva de notícias acerca da vacina da AstraZeneca e dos riscos baixíssimos de coágulos no sangue que apresenta aumentou a desconfiança em vários países face a este medicamento. Mas, em Portugal, “por enquanto”, tal “ainda não é uma preocupação”, garantiu o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo à RTP3.

“Não estamos a fazer o registo sistemático de pessoas de pessoas que se tenham negado [a receber uma vacina específica] porque há cerca de oito milhões de portugueses que querem receber a vacina”, afirmou o coordenador da task force responsável pela operação de vacinação anticovid-19.

“Não temos sentido muito isso, mas claro que todas as dúvidas e todo o ruído à volta desta vacina podem ter um efeito negativo”, admitiu. “Temos de ter muito cuidado em não entrar numa curva de histeria que vai prejudicar não só o processo de vacinação, mas essencialmente a protecção das pessoas. A coisa mais perigosa é não estar vacinado.”

Na comunidade de Madrid, menos de metade dos maiores de 60 anos que deveriam receber a vacina da AstraZeneca na quinta-feira apareceu nos locais de vacinação, um dia depois de a Espanha ter recomendado que os mais jovens sejam vacinados com outra vacina. Em França, onde os cidadãos podem escolher que vacina tomam, muitos rejeitaram o fármaco anglo-sueco.

Gouveia e Melo recorre aos números para reforçar que a vacina da AstraZeneca é segura e eficaz, com os benefícios a superarem largamente os riscos: “Nesta última semana, já morreram de covid em Portugal mais pessoas do que todas as pessoas que morreram de eventos tromboembólicos da vacina da AstraZeneca, tendo esta sido administrada a 30 milhões de pessoas [em todo o mundo].”

“Ruído”, redes sociais e negacionistas

Gouveia e Melo lamenta o “ruído” criado “por indecisões” e descoordenação dos governos europeus, pela “mediatização dos problemas, pelas redes sociais e por grupos negacionistas que propagam ao máximo as dúvidas”.

Ainda assim, diz que os portugueses já estão a testemunhar os efeitos positivos da vacinação, nomeadamente na redução do número de internamentos e mortes na população mais idosa. “Há pessoas entre os 60 e os 79 anos que já começaram a ser vacinadas” e a 2 de Maio, “em princípio”, toda a população com mais de 70 anos terá recebido pelo menos a primeira dose de uma vacina anticovid-19.

No mesmo espaço de informação da RTP, o coordenador da Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid-19 da Direcção-Geral da Saúde (DGS), Valter Fonseca, também defendeu a segurança desta vacina e rejeitou que as autoridades de saúde em Portugal tenham gerado confusão em torno da mesma. Esta semana, a vacina foi desaconselhada a menores de 60 anos, quando em Fevereiro tinha sido suspensa a sua aplicação a maiores de 65.

“Quando esta vacina foi aprovada, não havia dados suficientes para provar a eficácia acima dos 65 anos. Foi por isso tomada uma decisão e uma recomendação de potenciar os efeitos benéficos já conhecidos nas fases etárias onde havia dados sólidos”, explicou. “A partir do momento em que dados do mundo real foram conhecidos, foi também demonstrada a sua alta eficácia acima dos 65 anos e, por isso, em Portugal a vacina passou a ser aprovada para todas as idades sem qualquer restrição. A situação que se passa agora é um pouco diferente: não estamos a falar de questões de ausência de dados sobre a eficácia da vacina nas faixas mais avançadas, mas de terem surgido algumas dúvidas relativamente a alguns efeitos adversos.”

Sobre isto, o responsável da DGS lembrou que esta é a vacina “mais escrutinada” entre as que estão aprovadas na União Europeia. “Por muito que se investigue, está confirmado que é eficaz e segura”, insistiu. Perante “fenómenos trombóticos extremamente raros”, Portugal optou por recomendar o seu uso apenas acima dos 60 anos: porque os idosos são população de risco e porque as tromboses foram registadas nos mais jovens, sublinhou.

Tal como Gouveia e Melo, Valter Fonseca acredita que as notícias em torno da AstraZeneca não vão perturbar o processo de vacinação. “Portugal tem uma longa história de ser um dos países com uma aceitação das vacinas muito elevadas”, justifica. “Estamos a tê-la também na vacinação da covid-19. As pessoas confiam nas decisões das autoridades de saúde.”